As últimas declarações do governo norte-americano indicam que a palavra "invasão" deixou de ser a mais adequada para definir o que houve na Venezuela — o mais correto é falar em anexação.
O país, que era independente desde 1811, passou a ser uma colônia dos Estados Unidos, uma espécie de mega Porto Rico (a ilha é, oficialmente, um "estado livre associado").
A capital da Venezuela jamais mereceu tanto ser associada à exclamação que, entre nós, brasileiros, há anos é usada para substituir uma palavra tida como de baixo calão: Caracas!
Não se pode chamar de independente um país que recebe, calado, a determinação de que a partir de agora sua única riqueza relevante, o petróleo, passará a ser controlada por uma outra nação, a mais poderosa de todas.
Não foi à toa que Donald Trump, sábado, disse que os EUA é que iriam controlar a Venezuela — ele é, de fato, o novo presidente do nosso vizinho.
Manda tanto que decidiu e anunciou: o dinheiro que os venezuelanos receberão da exploração do petróleo — que voltará a ser controlada por empresas norte-americanas — terá que ser gasto na compra de produtos fabricados nos Estados Unidos.
Trata-se da aplicação de um padrão colonialista já aplicado no Brasil por Portugal que, depois, terceirizou o privilégio para a Inglaterra.
Ao longo de décadas, o dinheiro fácil do petróleo fez da Venezuela uma espécie de dependente químico, o país importa boa parte ou quase tudo que consome. Um processo que foi radicalizado depois da ascensão do chavismo, que retribuiu a antipatia recebida da elite do país: uma casta de privilegiados que havia criado um pais rico e de renda concentrada.
O ex-presidente Hugo Chávez foi também fruto da histórica desigualdade social, que, embalada pelos então altos preços do petróleo, diminuiu em seus governos.
(Estive em Caracas, a trabalho, em 2019, quando a inflação chegou a, acredite, 9.500% — no ano passado, foi de 270%. Era fácil perceber o tamanho do problema. As prateleiras de supermercados estavam vazias, era proibido fotografá-las. Alimentados por uma gasolina que, na prática, era gratuita, carros sem peças de reposição se arrastavam pelas ruas; a tentativa de pagar uma refeição em moeda local se revelou patética, pela montanha de notas que fui obrigado a empilhar sobre a mesa. E havia a ditadura: na semana em que fiquei por lá, três jornalistas foram presos. Era evidente que o governo de Nicolás Maduro só se mantinha graças aos infinitos favores que concedia aos millitares que, semana passada, demonstraram toda sua incompetência. Eles, que controlavam toda rede de abastecimento do país, foram incapazes de criar um mínimo de resistência aos invasores.)
As levas e levas de pessoas expulsas do Venezuela pela fome e falta de trabalho reforçavam a gravidade da situação na Venezuela. A intervenção norte-americana, porém, é daqueles remédios capazes de matar o paciente: no caso, de destruir o próprio conceito de existência de um país, sua soberania.
É até possível que, nos próximos meses e anos, haja alguma recuperação da economia venezuelana, que deverá ser incrementada por investimentos norte-americanos. Mas a história mostra que colonizadores não admitem progresso de suas colônias, as utilizam apenas para satisfazer seus próprios interesses.
Não é difícil imaginar que, mais uma vez, a investida vai apenas maquiar os problemas para, depois, aumentá-los. Imperador do mundo, Trump reitera seu poder e seu domínio — e nenhum país está livre de ser a próxima vítima.