Por: Fernando Molica

Um escândalo master

CEO do Master, Daniel Vorcaro acabou libertado pela Justiça | Foto: Divulgação Banco Master

O pouco que ainda se sabe das irregularidades ligadas ao Banco Master indica que se trata de outro caso com raízes (e tronco, galhos e folhas) no universo político. Só com muitas e amplas ligações com políticos de diferentes matizes ideológicos que Daniel Vorcaro conseguiria criar, manter e expandir uma instituição que demonstrou ser tão frágil.

Episódios como o do Master revelam o erro de se ver a política principalmente com ênfase em conceitos como direita e esquerda. Não que essas definições sejam inúteis, que não ajudem na compreensão de linhas gerais do mundo institucional: Lula é diferente de Jair Bolsonaro; Fernando Haddad e Paulo Guedes têm profundas diferenças.

Mas limitar conflitos a questões ideológicas ajuda a esconder um submundo, as infinitas teias e conexões de interesses que viabilizam tantas negociatas, alimentam lobbies poderosos aprovam projetos de lei, colocam jabutis do tamanho de elefantes sobre incontáveis árvores, conseguem incentivos fiscais, arrancam assinaturas de presidentes, govenadores e prefeitos.

Apesar de todas as ilegalidades cometidas pelos responsaveis pela Operação Lava Jato, contaminada por um evidente viés de perseguição político-partidária, a apuração do chamado Petrolão revelou um pouco da política como ela é, como é praticada há décadas ou séculos entre nós.

O caso Master parece ser, assim, exemplar. Como bem definiu Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, o escândalo é "uma história realmente incrível que atinge aos quatro cantos da República e os quatro cantos não republicanos". Talvez o único erro do diagnóstico seja a limitação representada pelo uso do número quatro. 

Assim, de longe, dá para notar a existência de indícios de irregularidades relacionadas a governadores e parlamentares de diversos partidos, inclusive de gente que ainda não foi citada. Há também respingos que chegam a salpicar de suspeitas o chão do Poder Judiciário.

Vale ressaltar que, pelo menos até agora, não se sabe de nenhuma empresa privada que tenha tomado um prejuízo monumental com a quebra do Master, os micos gigantes concentram-se nas florestas da área pública.

Por razões que não são difíceis de adivinhar, empresários foram cautelosos, e, diferentemente de administradores públicos, não se iludiram com as generosas promessas de remuneração oferecidas por Vorcaro; não caíram na tentação, trataram de amarrar seu dinheiro nos mastros, evitaram a sedução dos tubarões fantasiados de sereias.

O beabá do mercado manda desconfiar de quem oferece remuneração muito alta para seus papéis. Isso vale para países e para bancos. Quem arriscaria sua grana na compra, hoje, de eventuais títulos emitidos pela Venezuela, mesmo diante da promessa de pagamento de elevadíssimas taxas de juros?

Mancomunado com diversas instituições financeiras, o Master saiu por aí oferecendo lucros espetaculares para quem topasse comprar seus CDBs. Confiantes no Fundo Garantidor de Créditos — que afiança investimentos de até R$ 250 mil —, muitas pessoas físicas toparam adquirir os tais papéis (até agora, não honrados). Mas investidores pesados colocaram os dois pés atrás, com exceção de governadores e prefeitos, que administram dinheiro que não é deles.

O caso do Master é grave demais para não ser apurado, a operação-abafa conduzida por muita gente importante em diversas esferas não pode prosperar. A Polícia Federal e o Ministério Público Federal têm a tarefa de mostrar que não escolhem seus alvos.