Ninguém pode se dizer surpreso com o fato de, até agora, Donald Trump não ter dado a menor bola para a redemocratização da Venezuela — os Estados Unidos costumam criar problemas apenas para ditaduras que prejudicam seus interesses.
Ao voltar atrás na acusação — sustentada por cinco anos — de que Nicolás Maduro chefiava um cartel narcoterrorista, a Casa Branca apenas repete um velho roteiro, como no caso das armas em destruição em massa atribuídas ao ditador Saddam Hussein para justificar a invasão do Iraque em 2003.
Nem as armas nem o cartel existiram, serviram apenas de pretexto para os ataques, para as mortes. Chega a ser risível que a nação mais poderosa do mundo soubesse onde estava Maduro, mas ignorasse que o tal Cartel de Los Soles é apenas o apelido usado para definir o conjunto de funcionários públicos militares e civis venezuelanos que lucram com a corrupção e com dinheiro oriundo do tráfico de drogas. É evidente que Trump já sabia disso havia muito tempo, mas sustentou a mentira para tentar justificar o ataque.
O nome do cartel que não existe é derivado da insígnias presentes nos ombros dos generais venezuelanos — no lugar de estrelas, como no Brasil e na maior parte do mundo, os tais oficiais usam sóis: general de brigada carrega um sol; general em chefe, quatro sóis.
A ligação com os fardados não é gratuita: há muitas décadas e governos que eles têm um poder muito grande no país, tanto que o ex-presidente Hugo Chávez, um tenente-coronel, tratou de estruturar um sistema que concedesse mais e quase infinitas vantagens para esses servidores.
Durante o governo Maduro, oficiais superiores da ativa chegaram ao ponto de controlarem todo o sistema de distribuição de produtos consumidos pela população. Num país onde a escassez tornara-se regra, imagine o que é ter em mãos o direito de distribuir alimentos. Foi graças a esse privilégio que as forças armadas sempre apoiaram o chavismo.
Mas voltemos à invasão: políticos de direita que soltaram foguetes para comemorar a suposta volta da democracia à Venezuela devem estar começando a achar que desperdiçaram pólvora e credibilidade.
Em suas muitas declarações desde o sequestro de Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, Trump praticamente não falou em direitos humanos, liberdade política, eleições livres. Deixou claro que o negócio dele é o petróleo, tema predominante em suas declarações (até mesmo a história do suposto narcoterrorismo não mereceu muitas citações).
Nenhuma novidade nisso: foi para garantir seus interesses e os de suas empresas que os EUA articularam golpes de Estado no Brasil, em 1964, e no Chile, em 1973: como naquele samba de Monarco sobre a Portela, se formos em falar em intervenções norte-americanas, hoje não vamos terminar.
Um dos casos mais patéticos e graves é o do Panamá, um pedação de terra que os Estados Unidos tiraram da Colômbia para viabilizar a construção do canal que liga o Atlântico ao Pacífico.
Nos últimos dias, Trump tem repetido que não quer perder tempo com besteiras. Disse que irá além do que previa a Doutrina Monroe (que estabelecia o domínio dos EUA sobre as Américas), explicitou quem manda por aqui é ele. É preciso reconhecer que o sujeito, neste caso, não esconde o jogo.
Piores, porém, são aqueles que brigam pela vaga de jardineiros no quintal que Trump diz ser dele. Lideranças que, na ânsia de marcarem posição contra a esquerda, insistem em ver flores no campo recheado de minas colocadas pela Casa Branca.