Por: Fernando Molica

Maduro é o novo kit gay da direita

Oposição explora ligação de Maduro com Lula | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ao tentar transformar Nicolás Maduro num mote para a campanha de 2026 — uma espécie de reciclagem do kit gay de 2018 —, a direita brasileira faz uma jogada arriscada: ainda é cedo para saber as consequências da decisão de Donald Trump de invadir a Venezuela e não vai ser tão simples convencer a maioria do eleitorado de que há muitas semelhanças entre o ex-ditador e o presidente Lula, por mais que este já tenha defendido o chavismo. 

Quando apoia sem restrições a atitude da Casa Branca, a oposição reforça a ideia de que submete interesses do Brasil aos dos Estados Unidos, situação semelhante à ocorrida quando boa parte de seus integrantes comemorou as sanções comerciais impostas pela Casa Branca ao país.

Comemorar a invasão de um país vizinho — por pior e mais opressor que seja seu governo — depõe contra a ideia de nacionalismo, de defesa absoluta do verde e amarelo tão difundida pela direita brasileira.

Ao publicar montagem em que Lula aparece preso por norte-americanos,  o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) manifestou aprovar — e até desejar — um eventual ataque ao país pelos Estados Unidos (pior é que a imagem original, com Maduro no centro, também é falsa).

Submissa ao "big stick", ao grande porrete norte-americano, a oposição reafirma a crença na existência de um grande pai, de um justiceiro capaz de eliminar os pecados do mundo; ideia que faz sentido na lógica religiosa, mas que, aplicada ao mundo real, apenas indica fraqueza, infantilidade e incapacidade de se lidar com os próprios problemas. 

A pressa com que lideranças da direita manifestaram apoio ao ataque norte-americano revela também uma dificuldade de se encontrar um discurso popular contra a administração Lula — falar em desequilíbrio fiscal não costuma render votos (fora que a gastança promovida por Jair Bolsonaro em seu último ano de mandato não dá a seus aliados o direito de cobrar austeridade do Planalto).

A decisão do governo de condenar o ataque à Venezuela abre margem para que receba o carimbo de apoiador de Maduro. Mas não havia outra saída diante da agressão (ainda que Lula até hoje patine ao falar da invasão da Ucrânia pela Rússia). O fato de o Palácio do Planalto não ter reconhecido a vitória do agora presidiário ajuda a amenizar a ligação, ainda que não a afaste de vez.  

A tentativa de golpe organizada por bolsonaristas também dificulta associar a esquerda a uma ditadura: foi a direita que atentou contra a democracia. Em seu mandato, Bolsonaro procurou construir um modelo muito parecido com o implantado pelo chavismo, que encher os militares de benesses. Também é difícil dizer que a intervenção dos EUA vai levar democracia ao vizinho: Trump deixou claro que quer saber é do petróleo.

O aplauso à invasão e ao sequestro de Maduro contrasta com a reação cautelosa de boa parte de lideranças internacionais e demonstra uma confiança da oposição brasileira de que, nas próximas semanas, o Trump não vá se enrolar com as consequências do que mandou fazer. 

O futuro da Venezuela permanece em suspenso, por mais que se indique a possibilidade de uma tabelinha que garanta uma existência de um governo aceite fazer concessões às petroleiras norte-americanas. Trump deu início ao jogo, mas não tem como controlar suas variáveis.

Nada impede o ocupante da Casa Branca de dobrar sua aposta e de cumprir a promessa de anexar a Groenlândia e de usar a força também contra a Colômbia. Uma escalada na demonstração de poder complicaria ainda mais o discurso de uma direita que, ansiosa para encontrar um rumo, aposta no incerto.