A julgar por suas declarações favoráveis à invasão norte-americana à Venezuela, o senador Flávio Bolsonaro e os quatro governadores de direita que alimentam sonhos presidenciais teriam apoiado uma intervenção militar dos Estados Unidos no Brasil em 1977, no auge das divergências entre a Casa Branca e a ditadura brasileira.
O presidente dos EUA, Jimmy Carter, poderia alegar motivos parecidos com os de Donald Trump: por aqui, não havia eleições presidenciais, adversários do regime eram assassinados, torturados e presos. E o general de plantão na Presidência, Ernesto Geisel, anunciara, em 1975, um acordo nuclear com a Alemanha Ocidental, visto como ameaça pelos norte-americanos.
Os temas — direitos humanos e o acordo — provocaram uma das mais sérias crises já ocorridas na história das relações entre os dois países. Algo que, pela lógica de Trump, justificaria uma invasão ao Brasil, sequestro do presidente da República e estabelecimento de uma administração controlada por Washington.
O Brasil não havia assinado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, articulado por países que queriam garantir para si o direito de fabricarem bombas atômicas. O acordo com a Alemanha, que viabilizou a construção da usina de Angra 2, permitia a transferência da tecnologia de enriquecimento de urânio, fundamental na construção da bomba, algo não admitido por Washington. A campanha foi tão pesada que as forças armadas brasileiras decidiram investir em pesquisas para o enriquecimento de urânio, o que seria alcançado pela Marinha.
Ao longo de 1977, Carter promoveu duas reuniões com o governo alemão para tentar mudar os termos do acordo nuclar. Decidiu também que o respeito aos direitos humanos seria fundamental para que qualquer país recebesse algum tipo de colaboração militar dos EUA: relatórios sobre o tema teriam que ser examinados pelo congresso norte-americano. Irritado, o governo brasileiro encerrou o acordo de cooperação militar com os EUA que vigorava desde 1952.
Em novembro de 1977, Carter mandou seu secretário de Estado, Cyrus Vance, a Brasília, onde ele se reuniu com Geisel. O visitante, porém, cometeu um erro fatal: esqueceu no gabinete do brasileiro uma pasta com as estratégias que utilizaria para dobrar o Planalto. No ano seguinte, o presidente norte-americano veio ao Brasil e foi recebido de maneira protocolar por Geisel.
E então, Flávio, Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Romeu Zema: vocês acham que Carter teria justificativas para invadir o Brasil ou isso não poderia ocorrer porque a ditadura daqui era de direita? (Alguns de vocês sequer chamam de ditadura a ditadura que por aqui houve.)
Quem defende intervenção estrangeira para a derrubada de um governo relativiza o conceito de soberania nacional, desrespeita, por oportunismo político-eleitoral, um princípio constitucional básico — Trump, pelo menos, não disfarça que quer mesmo é saber do petróleo venezuelano.