2026 marca o início do fim da carreira do — goste-se ou não dele — mais importante político brasileiro das últimas décadas, Luiz Inácio Lula da Silva. Dono de uma trajetória só comparável à de Getúlio Vargas, Lula tem sobre este o grande mérito de poder alardear seu compromisso com a democracia: chegou a ser vítima de uma ditadura e esteve ameaçado de ser deposto por outra, felizmente abortada.
Preso e condenado em um processo viciado, marcado por ilegalidades e pedaladas judiciais, o petista deu uma quase inacreditável volta por cima, impediu a reeleição do então presidente e chega neste ano como favorito à eleição de outubro.
Se ganhar, o próximo ano será o 45º desde a primeira eleição que disputou, a de 1982, para o governo de São Paulo. Empatará assim com o período de vida política de Vargas, iniciado em 1909 (quando foi eleito deputado estadual) e encerrado em 1954 com seu suicídio. Assim, chegará ao fim do mandato aos 85 anos de idade, 55 anos depois de ter sido eleito, em 1975, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
A inevitável aposentadoria de Lula — como presidente duas vezes reeleito ou como candidato derrotado — levará a um rearranjo de forças políticas, principalmente à esquerda, campo em que o PT atua de forma hegemônica desde 1989. Nascido de forma oposta da tradição brasileira, o partido teve o grande mérito de levar para a política personagens que, até então, limitavam-se a bater palmas nos comícios ou a construir palanques em que se revezavam integrantes da elite institucional.
Ao nascer, o PT adotou uma proposta anticorrupção que levou o pedetista Leonel Brizola de, ironicamente, chamá-lo de UDN de macacão e tamancos, numa referência ao moralismo do partido do direitista Carlos Lacerda. A construção de caminhos para a chegada ao poder e o exercício de governos fizeram com que o partido adaptasse discurso e práticas, passou a jogar o jogo da política, e pagou caro por isso. Sobreviveu graças a Lula e aos desvarios de Jair Bolsonaro.
Envelhecido, o PT tem o desafio de superar a dependência do presidente, não pode correr o risco de, logo ali à frente, ter como principal bandeira o retrato do velho líder; Brizola falhou ao tentar se apresentar como uma reencarnação de Vargas, seu sempre ressaltado fio da história foi, aos poucos, se desfazendo. A história mudara.
Neste mandato, Lula parece se esforçar para entender uma realidade diferente daquela em que foi criado, encara uma juventude que abre mão de empregos formais — de um modo geral, mal remunerados — em troca de projetos que, boa parte das vezes, resumem-se ao equilíbrio precário e perigoso sobre duas rodas.
Depois de tantas gerações de promessas não cumpridas e de expectativas frustradas, jovens de origem pobre parecem ter desistido de dar murros na ponta da faca da escala 6 x 1 formalizada num salário quase mínimo registrado na velha carteira de trabalho varguista. Mesmo o incentivo à educação e à busca do título de doutor perderam força, não é fácil estudar por mais de 20 anos se, lá na frente, não há sequer a garantia de um emprego digno.
Melhor pegar a moto e sair inventando caminhos e corredores por aí. Uma visão de mundo mais compatível com a lógica do faça você mesmo incentivada pela direita, na garupa da loteria empreendedora de influencers e pastores — a salvação, como ensina a teologia da prosperidade, é individual e não mais coletiva.
Em 2026, mais do que encararem a saideira de Lula, o PT e a esquerda terão que enfrentar o inadiável fim de um modelo e a necessária procura de alternativas para o país. Como na música de Belchior, o que há algum tempo era novo e jovem, hoje é antigo. E não vai dar para ficar recolocando o retrato do velho sindicalista no mesmo lugar, até porque o lugar também não é mais o mesmo.