Por: Fernando Molica

RC e JG cantaram um país amoroso

João Gomes e Roberto Carlos cantam juntos | Foto: Ramiro Berthold/Divulgação/TV Globo

A participação do pernambucano João Gomes (23 anos) no Especial do capixaba Roberto Carlos (84) foi um daqueles momentos capazes de dar sentido a uma ideia de país — não como algo excludente ou xenófobo, mas de um sentido inclusivo, carinhoso e cheio de talento. 

Praticamente todos os nomes de sucesso da MPB já passaram pelo programa do Rei que, uma vez por ano, abre seu palácio virtual para legitimar, homenagear ou tirar uma casquinha de jovens que arrasam quarteirões pelo país afora.

Cantar ao lado dele é assim receber uma condecoração, título de cavalheiro ou de dama da Ordem Real de RC. É como se Roberto pousasse uma espada no ombro dos agraciados.

Goste-se ou não de Roberto Carlos, é impossível não saber de sua existência, de não reconhecer sua importância na música brasileira, da permanência de seu repertório entre nós. Todos conhecemos algumas ou muitas canções de RC, sabemos cantá-las.

Mas o impacto da presença de João Gomes isso foi um pouco além do esperado — e olha que quem escreve só foi ouvir falar nele quando de seu megashow em outubro, na Lapa, no Centro do Rio. 

Talvez essa surpresa tenha sido pela diferença de idade entre eles — 61 anos! —, pelo jeitão de menino, pelo repertório de viés romântico-abusado (o que remete ao RC dos anos 1970), pelo chapéu estilizado de vaqueiro e, principalmente, pela voz que parece incorporar Luiz Gonzaga e, um pouco menos, Dominguinhos. 

É como se houvesse ali um absurdo dueto entre dois reis (o pernambucano de Exu reinava no baião). O palco abrigava pontes dinâmicas: geracionais, geográficas, musicais e culturais. O Brasil cantado por Gonzagão, Dominguinhos e João Gomes é, no fundo, muito parecido com o de Roberto Carlos.

As músicas de todos eles tratam de sentimentos, de namoros, de saudades, da vida da gente que tanto rala por aqui. São canções que tocam nos bares, nas esquinas, nas festas, nas praças públicas, nos subúrbios.

RC é urbano; João Gomes, assim como os outros dois pernambucanos, trata de uma nostalgia do rural, do vaqueiro, do interior do Nordeste. Sua modernidade é temperada pela memória de um sertão bem diferente daquele que tem imperado nos últimos 30 anos.

Ele não trata do sertão do agronegócio, da terra feita escrava das máquinas, produtora de ração, riqueza, votos e poder — nada mais distante de JG do que a figura do agroboy arrogante, que laça aquela com quem quer ficar.

O garoto de Serrita joga em outro campo. Não usa chapelão de cowboy nem se espelha no modelo norte-americano de homem rural. Sei lá se ele já foi vaqueiro ou agricultor, mas sua postura é de quem vê a terra como parceira, sofre com ela a ausência da chuva, fica emocionado quando um açude sangra, transborda de tanta água — como diz o cearense Xico Sá, nada é mais bonito. 

Juntos, RC e JG cantaram um país capaz de se olhar e de respeitar diferenças. Apesar de tudo, das sucessivas safras de ódio e de intolência, vale acreditar num Brasil que, como na letra de "A volta" (canção de Roberto e Erasmo que João cantarolou no palco), ainda guarda o que há de bom em si, tanta ternura e tanto amor. Que o recado da dupla esteja presente no próximo ano. Feliz 2026!