Ao defender a interferência norte-americana no Supremo Tribunal Federal, o governador de Minas, Romeu Zema (Novo), pré-candidato ao Palácio do Planalto, mostrou que, caso eleito, descumprirá o juramento constitucional que obriga o presidente a sustentar a integridade e a independência do Brasil.
Ele, como qualquer outro cidadão, tem o direito de criticar o STF e o ministro Alexandre de Moraes, até de defender e articular seu impeachment. Mas não pode dar ao presidente de outro país — no caso, da maior potência econômica e militar — o direito de perseguir um integrante da suprema corte brasileira, órgão máximo do Poder Judiciário.
Ontem, em debate promovido pelo jornal O Globo, Zema, ao comentar as punições de Donald Trump a Moraes, Zema disse que o magistrado "paga pelo que plantou". Para o governador, portanto, é aceitável que a Casa Branca tenha o direito de se meter de maneira direta na vida institucional do país que ele pretende um dia presidir.
É a velha história do passar boi e passar boiada: ao dizer uma espécie de bem feito para Moraes, Zema abre caminho para que os Estados Unidos ou qualquer outra potência interfira nos poderes Executivo e Legislativo do Brasil.
Uma postura que não chega a ser de todo supreendente para um político que relativizou a existência de ditadura militar no país entre 1964 e 1985 — "questão de interpretação", segundo ele. Como não se um presidente constitucional não tivesse sido derrubado, como se cadáveres de adversários mortos pelo regime fossem abstratos. Sequer havia eleições para presidente e governadores.
Zema, assim, dá sua aprovação prévia à possibidade de que os EUA, a exemplo do que fizeram em 1964, ajudem a derrubar um presidente da República. Descumpre de maneira antecipada o compromisso básico de um mandatário, o de defender seu país e suas instituições.
Num esforço para se mostrar confiável à família e aos eleitores de Bolsonaro, Zema não tem economizado gestos para se mostrar um leal vassalo do ex-presidente e, agora, ao augusto soberano Trump (os adjetivos constam da carta em que Joaquim Silvério dos Reis dedurou os inconfidentes).
Também ontem, em entrevista à Jovem Pan News, o governador disse que o norte-americano "tenta reconduzir o Brasil para onde nunca deveria ter saído". Reconhece, portanto, que a Casa Branca tem o direito de fazer com que sua vontade se imponha ao desejo manifestado por brasileiros nas urnas.
Zema, não custa reiterar, pode criticar a política externa do governo, o estímulo brasileiro ao Brics, a integração econômica com países como a China e a Rússia. Pode até cometer o desatino populista de vincular relações econômicas à religião predominante em cada país, ainda que os Estados Unidos jamais tenham dado bola pra isso.
Mas o governador, na ânsia de se transformar numa espécie de Bolsozema, de se integrar à família do ex-presidente como se fosse o filho 05, não tem o direito de relativizar a independência e a soberania do seu próprio país.
A questão vai muito além do visto e do cartão de crédito de Moraes. O texto do documento que oficializa as chantagens contra o Brasil fala que fatos ocorridos em nosso país representam "ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos EUA".
Ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, vale repetir. Ou seja, o decreto de Trump abre margem para retaliações ainda mais graves, no limite, à tomada de medidas de caráter militar contra o Brasil. E Zema, que quer ser presidente da República, acha isso tudo razoável.
Em 1999, para impedir a privatização de Furnas, o então governador mineiro Itamar Franco despachou 2.500 soldados da PM para as margens de uma hidrelétrica da empresa, onde fariam exercícios militares — a pressão deu resultado.
O gesto foi ironizado, visto como mais uma excentricidade do ex-presidente da República. Mas Itamar fez o que achou necessário para defender os interesses de seu estado. Não agiu como súdito do Visconde de Barbacena que hoje dá expediente na Casa Branca, não beijou seus pés.