Por: William França

BRASILIANAS | Os bastidores humanos da Comissão Cruls ganham voz em novo livro

Reprodução do livro "Comissão Cruls – Em Busca da Capital Federal" | Foto: Divulgação

Lançado pela Editora Senac, obra traz relatos inéditos sobre a expedição que definiu o local de Brasília

Lançamento marca os 66 anos da capital e destaca preservação da memória histórica

Brasília completa 66 anos, mas a história que antecede sua existência é muito mais antiga — e muito mais humana — do que a maioria dos moradores imagina. Nesta terça-feira (22), a Editora Senac-DF e o Arquivo Público lançaram “Comissão Cruls – Em Busca da Capital Federal”, obra que abre uma janela íntima para a expedição que percorreu o interior do país no fim do século XIX para escolher o território da futura capital.

O livro nasce de um material raro: os diários pessoais do engenheiro militar Hastimphilo de Moura, escritos a mão durante a missão de 1892. Em uma das páginas preservadas, ele explica seu propósito com uma sinceridade desarmante: registrar “todas as impressões e acontecimentos da viagem”, agradáveis ou não, com o compromisso de “render culto e homenagem à mais pura verdade”.

Esses cadernos, que ficaram guardados por décadas, mostram um lado da Comissão Cruls que não aparece nos relatórios oficiais. Enquanto os documentos técnicos descrevem medições, coordenadas e análises geográficas, os diários revelam o que acontecia entre uma anotação e outra: as relações dentro do grupo, os conflitos, as brincadeiras, a saudade da família, o cansaço das longas travessias e até as impressões sobre as vilas, fazendas e pousos encontrados pelo caminho. Há passagens em que Hastimphilo descreve o Cerrado com um olhar quase poético, observando campos, savanas e florestas que hoje estão irreconhecíveis.

Macaque in the trees
Este é o primeiro desenho do quadrilátero que originou o DF, em 1892 | Foto: Reprodução

O livro também traz reproduções de mapas feitos à mão pelos expedicionários — rabiscos em papel pautado que tentavam dar forma a um território ainda pouco conhecido. Os pequenos cadernos têm, por exemplo, o primeiro desenho do quadrilátero que originou o atual "quadradinho" do DF.

Nos relatos, rios, vilas e trilhas aparecem como pontos frágeis em meio ao vazio do planalto. É impossível olhar para esses desenhos sem imaginar o que significava atravessar aquela região com bússolas, animais de carga e uma coragem que beirava a teimosia.

Para o presidente do Sistema Fecomércio-DF, José Aparecido Freire, a obra é uma forma de reconectar Brasília às suas raízes. Ele afirma que resgatar essa história “é reconhecer o esforço de quem ajudou a construir esse projeto de país”. Já o diretor regional do Senac-DF, Vitor Corrêa, destaca que tornar esses documentos acessíveis é uma forma de democratizar o conhecimento e aproximar o público de um capítulo decisivo da formação do Distrito Federal.

Os manuscritos, preservados pelo Arquivo Público do DF, passaram por adaptação linguística e curadoria editorial para facilitar a leitura contemporânea, sem perder a essência do autor. O processo contou com apoio de ferramentas de inteligência artificial, que ajudaram a organizar e decifrar trechos deteriorados, ampliando o alcance dos relatos originais.

Ao reunir emoção, memória e ciência, o livro mostra que a escolha do território de Brasília não foi apenas um cálculo técnico. Foi uma travessia cheia de dúvidas, descobertas e resistência.