Brasília se consolida como vitrine da transição energética no Brasil
Capital concentra quase 10% das vendas nacionais de eletrificados
Lei autoriza postos de combustíveis a instalar pontos de recarga
Brasília encerrou 2025 com um feito histórico: a capital federal já responde por quase 10% de todas as vendas de veículos eletrificados leves no país, consolidando-se como o segundo maior mercado nacional, atrás apenas de São Paulo. Foram 21.639 emplacamentos ao longo do ano, número que coloca o Distrito Federal à frente de grandes centros como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Curitiba.
Esse protagonismo não é casual. Ele reflete características próprias da capital: renda média elevada, maior concentração de serviços públicos e privados e, sobretudo, políticas locais de incentivo à mobilidade sustentável.
No DF, veículos elétricos e híbridos têm isenção total de IPVA, e o governo lançou linhas de crédito especiais para taxistas e motoristas de aplicativo adquirirem modelos eletrificados. Essas medidas ajudam a explicar por que Brasília já conquistou espaço sólido entre os consumidores e se tornou referência nacional na transição energética.
No cenário nacional, o setor de eletrificados fechou o ano com 223.912 unidades vendidas, contra 177.358 em 2024. O crescimento foi de 26%, dez vezes superior ao avanço do mercado automotivo como um todo, que cresceu apenas 2,6%.
O mês de dezembro foi particularmente marcante: 33.905 veículos eletrificados emplacados, 60% acima de novembro e 57% superior ao mesmo mês de 2024. A participação no mercado total chegou a 13%, o maior índice já registrado na série histórica da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
A virada da eletromobilidade
Para o presidente da ABVE, Ricardo Bastos, 2025 representou uma virada definitiva. “Ultrapassamos o marco simbólico dos 200 mil veículos eletrificados vendidos num único ano. Em 2016, tínhamos ficado felizes quando atingimos 1.091 unidades e agora chegamos a 223.912. O mercado aumentou 20.423% em apenas 10 anos”, destacou.
Essa virada se explica por três fatores principais:
- Produção nacional: fábricas inauguradas pela GWM em Iracemápolis (SP), pela BYD em Camaçari (BA) e pela Comexport em Horizonte (CE) iniciaram a montagem de modelos 100% elétricos e híbridos plug-in.
- Diversidade de oferta: foram 400 modelos diferentes disponíveis em 2025, contra 317 em 2024.
- Preços mais acessíveis: a maior concorrência e a produção local reduziram barreiras de entrada para o consumidor.
Perfil das vendas
Entre os eletrificados, os híbridos plug-in (PHEV) lideraram o mercado, com 101.364 unidades vendidas no ano (45% do total). Os 100% elétricos (BEV) vieram em seguida, com 80.178 unidades (36%). Já os híbridos sem recarga externa (HEV e HEV Flex) somaram 42.370 unidades (19%).
Em dezembro, os plug-in responderam por 78% das vendas, com destaque para os PHEV (44%) e os BEV (34%).
Incentivos locais e aplicativos puxando a demanda
O incentivo mais conhecido no DF é a isenção total de IPVA para veículos elétricos e híbridos adquiridos por pessoas físicas. A medida, em vigor desde 2025, representa uma economia significativa para os proprietários e tem estimulado a adoção da tecnologia.
Outro ponto de destaque é o crédito subsidiado. O Banco de Brasília (BRB) oferece linhas de financiamento com taxas a partir de 0,39% ao mês, cobrindo até 80% do valor do veículo para taxistas. O governo local estuda ampliar esse benefício para motoristas de aplicativo, criando condições semelhantes às já oferecidas para o transporte individual remunerado.
As plataformas de transporte também têm papel decisivo. A Uber lançou em Brasília, em 2026, a modalidade Uber Electric, exclusiva para veículos 100% elétricos. A 99 oferece bônus de até 800 reais por mês para motoristas que adesivarem seus carros elétricos ou híbridos. Já a Z-EV, aplicativo dedicado exclusivamente a veículos elétricos, estreou na capital com foco em sustentabilidade e economia operacional.
Esses incentivos se somam a parcerias comerciais. A BYD, em conjunto com o Santander, oferece descontos de até 6%, taxas de financiamento reduzidas e bônus de até 1.000 reais para instalação de carregador residencial. Modelos como o BYD Dolphin, o Dolphin Mini (com incentivos de até 12 mil reais) e o Geely EX2 são os mais populares entre motoristas de aplicativo, por combinarem economia de combustível e manutenção simplificada.
Economia e vantagens operacionais
Para quem trabalha com transporte, a conta fecha. Motoristas relatam redução de até 80% nos custos com combustível, além de manutenção mais barata. Essa economia amplia a margem de lucro e torna a transição para o carro elétrico não apenas uma escolha ambiental, mas também financeira.
Expansão da infraestrutura de recarga
A infraestrutura de recarga, porém, ainda é um desafio. Para enfrentar essa barreira, foi aprovada a Lei nº 7.831/2025, de autoria do deputado Hermeto (MDB), que autoriza postos de combustíveis a oferecer recarga elétrica. A medida busca aproveitar a capilaridade dos postos para acelerar a adoção dos veículos eletrificados.
Segundo o parlamentar, “os postos de combustíveis, com sua ampla distribuição e conveniência, representam locais estratégicos para a instalação de estações de recarga”. O texto considera veículo elétrico aquele movido exclusivamente por motor elétrico e veículo híbrido aquele que combina propulsão a combustão e elétrica. O GDF ainda precisa regulamentar as especificações técnicas dos equipamentos de recarga.