TRANSPORTE PÚBLICO GANHA UPGRADE (2)
Além da capacitação dos rodoviários, outros pontos precisam ser ajustados para que o DF possa ter um "sistema suiço ou japonês" de transporte público urbano
Embora o novo modelo de monitoramento e de gestão do transporte público urbano do Distrito Federal que será operado pelo Centro de Supervisão Operacional (CSO) da Semob-DF seja fundamental, ele não será o único responsável pelo sucesso do sistema.
Para que o DF possa ter "um sistema suiço ou japonês de transporte público urbano", há um consenso entre a equipe técnica de que nada do que foi programado ou preparado irá funcionar a contento se não contar com a adesão e a correta utilização justamente de quem está ao volante dos ônibus: o motorista.
Dependerá do motorista do ônibus - e do seu aprendizado e de uma adaptação cultural, mesmo - o bom funcionamento do "DF no Ponto". Se o motorista não cumprir as regras previstas, todo o planejamento pode ir para o ralo.
A Semob-DF estima que 90 dias é o prazo para que o funcionamento do sistema apresente as principais dificuldades. Há um compromisso das empresas, segundo a Secretaria de Mobilidade, de que todos os cerca de 5 mil motoristas que atuam nas cinco empresa concessionárias passem por reciclagem, para entender o que está por detrás das mudanças e o papel deles no novo sistema. Também, o que implica (e impacta) a não atuação correta deles.
"Brasilianas" procurou desde o início da semana o presidente do Sindicato dos Rodoviários do DF, João de Deus, para obter a opinião dele e da categoria sobre o novo modelo de operações dos ônibus urbanos no DF. Até o fechamento desta edição, não obteve resposta.
Falhas no sistema que dependem do motorista
Há dois meses, "Brasilianas" vem testando a versão do novo APP "DF no Ponto" - a pedido da Semob-DF. Como se sabe, este colunista é usuário do sistema de transporte público urbano no DF, por opção.
Desde então, esta coluna observações e também sugestões. Muitos ajustes foram feitos ao longo deste teste e vários "defeitos" foram revelados.
Um deles é um bom exemplo de como o sistema dependerá (sobretudo no primeiro momento) tão-somente do motorista. Vou relatar o fato: num dos 10 pontos de ônibus que já têm o QR Code para testes, assim que cheguei (e cliquei no código) foi gerada uma lista no meu celular, com as linhas e os horários dos ônibus que iriam passar por aquele ponto nos próximos dez minutos.
De repente, menos de um minuto depois de eu ter gerado a lista, eis que aparece um ônibus, não previsto na lista. Isso é um problemão...
Acionado, o CSO identificou qual foi a falha: o motorista não tinha ajustado o rastreador, e aquele veículo era como "um fantasma" na rota, tal como um ônibus pirata. Ele deveria ter indicado que estaria fazendo aquela determinada linha (e não o fez), por isso o sistema não informou sua aproximação.
Mas, por conta desse mesmo dispositivo de rastreio, foi possível verificar todo o trajeto do veículo e constatar o momento em que o motorista havia deixado de fazer esse ajuste, e distorceu todo o sistema.
Resultado: como está em fase de testes, o CSO gerou uma advertência para a empresa (e consequentemente para o motorista). Depois desta fase, a advertência será efetivamente uma multa e, dependendo da recorrência, pode gerar advertência e mesmo a demissão do motorista.
Adiantar é pior que atrasar
Para a Semob-DF, o pior problema de todos para o êxito do "DF no Ponto" é o ônibus se adiantar. E esse percentual, hoje, é bastante alto. Vou explicar melhor...
Em um dia de semana, cerca de 2.950 ônibus circulam no DF, realizando 22.460 viagens. Desse total, segundo a Semob-DF, 81,5% cumpriram o horário estabelecido na ordem de serviço. Houve 8,5% de atrasos e 2,2% de furos (cancelamentos). Esses dados indicam que houve 91% de eficiência do sistema neste dia.
Mas, houve o registro de 7,7% de ônibus que se adiantaram ao estabelecido. Significa que em 1.729 horários o usuário ficou esperando o ônibus no ponto, que não passou naquele horário previsto porque já tinha passado antes.
Esse adiantamento distorce todo o sistema. Ele é tão prejudicial quanto o "comboio", quando dois ônibus da mesma linha rodam juntos, alternando as paradas para ganhar tempo.
E por que os motoristas adiantam a viagem? Segundo a Semob-DF, para ficarem mais tempo descansando nos terminais. Esse "mal hábito" já foi identificado pelo novo CSO e fez com que uma linha, em que havia a previsão de ser percorrida em 55 minutos, fosse reduzida para ter intervalos de 37 minutos. Esse foi o tempo que os motoristas usavam para realizar o trajeto e passou a ser estipulada como a nova regularidade.
Integração com outros sistemas
Outro desafio está extra-muros da alçada da Semob-DF. A Secretaria de Obras, por exemplo, por meio da Novacap ou do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-DF), resolve fazer uma reforma numa pista. Mas não avisa nada. Se tiver ônibus no trajeto da obra, certamente deverá causar impactos - tanto no tempo da viagem como no trajeto.
Há vários relatos de mudanças e fechamentos de vias pelo DER ou pelo Detran-DF sem que houvesse qualquer indicação à Semob-DF. Com isso, o trajeto do ônibus sofre ajustes não-previstos e todo o planejamento é impactado.
Outra questão é com relação a acidentes ou intercorrências nas vias. Recentememente, uma ação policial no Sol Nascente (a remoção de barracos) levou a uma ameaça de depredação de ônibus. Resultado: a empresa (Marechal) recolheu todos na garagem. A Semob-DF só descobriu quando o sistema deu um alerta, mas não foi comunicada de nada.
Agora, com a integração dos dados, uma pane no Metrô (lamentavelmente, cada vez mais frequentes) poderá levar a um ajuste e reforço nas linhas das estações impactadas. Mas ainda é uma correção paliativa.
"Brasilianas" vem há tempos afirmando que não há uma gestão integrada do trânsito do Distrito Federal. Um único local, ou órgão, que centralize todas as informações que tragam impacto na mobilidade urbana. Agora, com o novo CSO, essa necessidade ficará ainda mais patente.
Esta coluna faz votos para que o GDF faça a junção dos vários sistemas num só, assim como a Semob-DF reuniu todos os sistemas das empresas de ônibus. Capacidade técnica, há de sobra (como se constata). Falta apenas vontade política.