Arranhando seu violão nos acordes de "Cucurrucucú Paloma", em "Fale Com Ela" (Oscar de Melhor Roteiro Original em 2003), o baiano Caetano Veloso cunhou o termo almodrama para classificar a estética esculpida nas telas pelo manchego Pedro Almodóvar a partir do léxico melodramático da era moderna do cinema. Tem Douglas Sirk, tem Vincente Minnelli, tem (em especial) Fassbinder no caldo fervido pelo diretor, numa alquimia com temperos ibéricos e com o cancioneiro romântico latino-americano.
Mais tarde, um outro orixá da Bahia, José Carvalho, o maior teórico de roteiro do Brasil, veio com o conceito de "metamelodrama", segundo o qual a obra do realizador de "Tudo Sobre Minha Mãe" (Prêmio de Melhor Direção em Cannes, em 1999) não se estratifica sobre a vida (a real) e, sim, sobre a vida reimaginada pelo discurso cinematográfico, o que justifica os excessos de suas personagens e de suas tramas. É só por vias excessivas, na hipérbole (do querer e do sofrer), que o melodrama cumpre com seus desígnios essenciais.
As duas classificações, ambas regadas a dendê, encontram a especiaria da autocrítica no colossal "Natal Amargo" ("Natal Navidad"). Bárbara Lennie é uma de suas mais vívidas exuberâncias, firmando-se no rol das estrelas almodovarianas.
Ela atua num diapasão de ambiguidade, fervendo o caldo quente de uma investigação sobre os limites entre o privado e o público na construção de uma narrativa. De cara, vem uma tiração de sarro: "cineasta autoral é aquele que é visto por poucos", brinca Elsa, publicitária vivida por Lennie, qual fosse alter ego de Almodóvar. Consumida pelo luto após a morte da mãe durante o Natal, ela tenta sobreviver ao desgaste emocional provocado pelo excesso de trabalho e pelas dificuldades afetivas. Vive cercada pelo carinho de Bonifácio (uma força da natureza chamada Patrick Criado), bombeiro que complementa sua renda trabalhando como stripper na noite. Apesar de todo o tesão e de toda cumplicidade oferecidos pelo rapaz, Elsa se sente incapaz de reorganizar a própria subjetividade em Madri e decide partir para Lanzarote. Numa reta paralela, vemos Raúl Durán, um cineasta de prestígio (vivido pelo argentino Leonardo Sbaraglia), hoje em crise criativa de meia-idade. Sem ideias, ele decide transformar as vidas de seus amigos em matéria cinematográfica.
A dado ponto, parece que "Natal Amargo" é um ensaio ético sobre fontes dramatúrgicas e as fidelidades por ela exigidas. Logo se percebe que não é (pelo menos, não é só isso), logo que, guloso, Almodóvar se joga no fosso que mescla todos aqueles relatos. Ali os enredos passam a refletir-se num jogo metalinguístico onde realidade, memória, ficção e o próprio Almodóvar se confundem e se imiscuem. A trilha sonora de Alberto Iglesias tempera essa orgia sensorial.
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