Eleições 2026

Aliados de Trump questionam vitória de Lula e ampliam tensão com os EUA sob a Doutrina Monroe

Donald Trump Jr. repercute críticas à prorrogação da votação determinada por Cristiano Zanin. Presidente americano ainda não se manifestou oficialmente sobre o reconhecimento da reeleição de Lula.

Aliados de Trump questionam vitória de Lula e ampliam tensão com os EUA sob a Doutrina Monroe
Donald Trump acompanha a eleição brasileira em meio a críticas de aliados à prorrogação da votação e à retomada da Doutrina Monroe. Crédito: Molly Riley/The White House

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que derrotou Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno deste domingo (25), provocou críticas de integrantes do entorno político do presidente americano Donald Trump. As manifestações questionam a prorrogação do horário de votação determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF). Até o momento, Trump não anunciou qualquer decisão de desconhecer a vitória de Lula.

A controvérsia ganhou repercussão internacional depois que o advogado Martin De Luca, representante de empresas ligadas a Trump, criticou a decisão judicial que estendeu a votação até as 19h. Em publicação no X, ele levantou suspeitas de manipulação e questionou se a comunidade internacional reconheceria uma vitória do petista. De Luca também comparou a situação brasileira à da Venezuela, governada anteriormente por Nicolás Maduro. As acusações não vieram acompanhadas de provas de fraude eleitoral.

A manifestação foi compartilhada por Donald Trump Jr., filho do presidente americano. Ele afirmou que uma medida semelhante, caso fosse adotada por um governo conservador, provocaria forte reação da imprensa dos Estados Unidos. A publicação ampliou a repercussão das críticas entre setores da direita americana, mas não representa uma posição oficial da Casa Branca.

O episódio teve origem em denúncias de dificuldades no transporte de eleitores, especialmente na Bahia. A campanha de Lula pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a ampliação do horário de votação e, posteriormente, recorreu ao STF. A campanha de Flávio Bolsonaro também solicitou prorrogação ao TSE, mas em estados afetados por problemas climáticos. Zanin determinou a extensão nacional pouco depois das 17h, quando diversas seções já haviam encerrado os trabalhos.

A decisão provocou a suspensão temporária da divulgação dos resultados. Em esclarecimento oficial, o TSE informou que apenas as seções que ainda estavam funcionando às 17h poderiam continuar recebendo votos. As urnas já encerradas permaneceram fechadas, e a totalização foi retomada após as 19h.

Presidente do TSE, o ministro Kassio Nunes Marques reconheceu que a determinação de Zanin provocou dificuldades operacionais. Segundo ele, não havia precedente para uma prorrogação nacional determinada depois do horário previsto para o encerramento da votação. Apesar das críticas ao procedimento, Nunes Marques reconheceu a vitória de Lula e comunicou a derrota a Flávio Bolsonaro.

As críticas de pessoas ligadas a Trump ocorrem em um contexto de endurecimento da política externa de Trump para a América Latina. Em dezembro de 2025, a Casa Branca anunciou uma atualização da Doutrina Monroe, princípio formulado em 1823 pelo presidente James Monroe para se opor à interferência de potências europeias no continente americano. Ao longo da história, a doutrina também foi utilizada para justificar intervenções e a expansão da influência dos Estados Unidos sobre países latino-americanos.

A nova interpretação, chamada pelo governo americano de "Corolário Trump", estabelece a recuperação da predominância dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental como prioridade de segurança nacional. O documento estratégico da Casa Branca prevê impedir que potências externas ampliem sua presença militar ou controlem ativos considerados essenciais na região. A orientação reforça a disputa de Washington por influência econômica, política e estratégica nas Américas.

Nesse cenário, as críticas à reeleição de Lula se somam às divergências já existentes entre os dois governos. O Brasil mantém uma política externa de aproximação com diferentes parceiros internacionais, incluindo a China, enquanto Washington busca limitar a influência de concorrentes estratégicos no continente. A hipótese de não reconhecimento, entretanto, permanece no campo da análise política, sem anúncio de medida diplomática concreta pelo governo americano.

Neste domingo, antes da definição da eleição brasileira, Trump afirmou que acompanhava a votação, mas evitou declarar apoio a Lula ou Flávio Bolsonaro. Questionado sobre a disputa, respondeu: "Não quero entrar nesse assunto, mas estamos monitorando". A declaração não equivale a uma contestação do resultado.

O resultado presidencial foi proclamado pelo TSE na noite deste domingo. A possibilidade de uma reação americana dependerá de manifestações oficiais da Casa Branca e de eventuais medidas diplomáticas. Por enquanto, as críticas partiram de pessoas ligadas ao entorno político e empresarial de Trump, enquanto a Justiça Eleitoral brasileira reconheceu a reeleição de Lula.