Uma reunião entre André Mendonça e Daniel Vorcaro entrou no centro de uma nova apuração no Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Flávio Dino encaminhou ao presidente da Corte, Edson Fachin, uma série de informações para esclarecer se existem conexões entre o encontro, interesses ligados ao Banco Master no setor funerário e a atuação de Mendonça em um processo sobre cemitérios de São Paulo.
A cronologia é um dos pontos destacados por Dino. Mendonça recebeu Vorcaro em 14 de março de 2025, na sede do Instituto Iter, em São Paulo. No dia seguinte, pediu vista de um julgamento que discutia medidas relacionadas à concessão dos serviços funerários, cemiteriais e de cremação da capital paulista.
O pedido de vista permite que um ministro tenha mais tempo para examinar um processo antes de apresentar seu posicionamento. Com a solicitação de Mendonça, a análise foi interrompida temporariamente.
O processo voltou à pauta em 4 de abril. Na retomada, Mendonça abriu divergência e votou contra a manutenção da cautelar concedida anteriormente por Dino. A medida havia estabelecido regras para a cobrança e a prestação dos serviços funerários privatizados em São Paulo.
A proximidade entre a reunião com Vorcaro e a interrupção do julgamento ganhou relevância diante de outros elementos identificados posteriormente. Dino apontou que investimentos relacionados ao Banco Master alcançavam justamente o setor discutido no processo.
Um dos vínculos passa pela Cortel, concessionária dos serviços funerários. O fundo Brazilian Graveyard and Death Care Services detém participação na companhia, enquanto o Master esteve entre os principais cotistas do fundo, que também chegou a ser administrado pela Master Corretora.
Outro personagem citado é Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Ele integrou o conselho da Cortel, e documentos da concessionária produzidos entre 2022 e 2025 teriam sido assinados por Zettel com endereços de e-mail institucionais ligados ao Master.
Dino também colocou sob análise elementos relacionados ao Instituto Iter. A instituição, fundada por Mendonça em 2024 para atividades educacionais e acadêmicas, passou a prestar serviços ao poder público paulista. Entre os negócios citados está um contrato de aproximadamente R$ 1,63 milhão, sem licitação, com a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), vinculada ao governo de São Paulo.
Mendonça anunciou neste mês sua saída da sociedade do Iter e afirmou que nunca recebeu distribuição de lucros da instituição.
Há ainda outro elo que Dino considera necessário esclarecer. Alexandre de Almeida Mendonça, irmão do ministro, trabalha na SP Regula, agência responsável pela fiscalização e regulação de serviços públicos municipais. Ele atua na área que abrange os serviços funerários e cemiteriais e foi promovido a secretário-executivo da agência em maio deste ano.
Ao reunir essas informações, Dino não afirmou que o encontro com Vorcaro tenha provocado o pedido de vista nem que Mendonça tenha votado para beneficiar interesses ligados ao Master.
O que o ministro defende é que a sequência dos acontecimentos e os diferentes pontos de contato justificam uma investigação capaz de estabelecer se as conexões existem ou são apenas circunstanciais.
A apuração deverá considerar, portanto, um conjunto mais amplo do que a reunião entre Mendonça e Vorcaro: o encontro ocorreu na véspera do pedido de vista, o Master possuía interesses financeiros relacionados ao setor funerário, o irmão do ministro atuava na agência reguladora responsável pela área e o Instituto Iter mantinha contratos com o poder público paulista.
Dino enviou os elementos a Fachin para que sejam incorporados ao procedimento que já analisa a atuação de Mendonça. O ministro ressaltou que qualquer conclusão sobre eventual conflito de interesses, favorecimento ou responsabilidade depende de investigação e deve assegurar o contraditório e a ampla defesa.
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