Caso Master

PF revela "linha de montagem" digital para fraudar créditos do Master

Investigação aponta uso de dados reais, documentos em massa e edição de arquivos para criar aparência de legitimidade a operações de R$ 7,15 bilhões

PF revela "linha de montagem" digital para fraudar créditos do Master
Banco Master Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

A Polícia Federal identificou uma estrutura digital que teria sido utilizada para fabricar documentos destinados a dar aparência de legitimidade a operações de crédito envolvendo o Banco Master, a Tirreno Consultoria e o Banco de Brasília (BRB). Segundo relatório técnico-pericial da corporação, funcionários recorreram a dados reais de clientes, programas de computador e edição de arquivos para montar conjuntos documentais apresentados como operações legítimas.

A investigação descreve o funcionamento de uma espécie de “linha de montagem” digital, na qual diferentes equipes executavam etapas específicas. Informações retiradas de sistemas internos eram transformadas em documentos, páginas de assinaturas eram isoladas e reaproveitadas, arquivos tinham datas alteradas ou removidas e, posteriormente, diferentes peças eram reunidas em PDFs.

O material analisado pela PF aponta que a estrutura teria sido utilizada para sustentar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de créditos consignados atribuídas à Tirreno Consultoria. As carteiras, segundo a investigação, teriam sido utilizadas pelo Banco Master em operações de venda ao BRB.

A descrição consta de um relatório pericial produzido a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master. O arquivo, intitulado “Investigações internas – Banco Master”, contém 30 slides e reúne informações sobre atividades realizadas entre junho e outubro de 2025.

Dados reais de clientes eram usados como base

O primeiro estágio identificado pelos investigadores consistia na obtenção de informações de clientes que já haviam realizado operações legítimas.

Entre os dados utilizados estavam informações relacionadas ao CredCesta, modalidade de crédito consignado destinada, entre outros públicos, a servidores públicos, aposentados e pensionistas.

Segundo a perícia, em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista sênior da área de tecnologia, um levantamento de CPFs.

Os dados foram reunidos em um arquivo chamado cpf_cessao.csv. No dia seguinte, uma consulta ao banco de dados interno resultou em uma nova planilha, denominada Dados_cessão.xlsx.

O arquivo continha informações cadastrais dos clientes, como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe. Segundo a investigação, esses registros foram utilizados como matéria-prima para a produção dos documentos que posteriormente comporiam as operações.

Mensagens internas também revelaram que os próprios funcionários envolvidos na atividade identificavam problemas na base de dados.

Em uma conversa de junho de 2025, Rafael Manfrin da Silva e Thiago Ramalho discutiram a filtragem das informações. Rafael chegou a apontar que havia um CPF associado a apenas uma proposta de 2019 e classificou a lista como problemática.

Para a PF, o episódio demonstra que os dados utilizados na produção dos documentos não correspondiam necessariamente, em sua totalidade, às operações que deveriam representar.

Sistema produziu 2.700 procurações

Depois da coleta das informações, a estrutura utilizava ferramentas comuns de escritório para produzir documentos em larga escala.

Um dos recursos empregados foi a mala direta do Microsoft Word, que permite preencher automaticamente modelos de documentos a partir de dados armazenados em planilhas.

De acordo com a investigação, Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, vinculou um modelo de procuração a uma base de dados relacionada à demanda BRB-Tirreno.

O procedimento permitiu gerar 2.700 procurações de uma só vez, em 20 de junho de 2025.

A utilização da ferramenta, segundo os investigadores, permitia reproduzir rapidamente documentos com dados individualizados, eliminando a necessidade de elaboração manual de cada peça.

Tecnologia também separava assinaturas

A área de tecnologia do banco teria participado de outra etapa considerada fundamental pela PF.

Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. aparecem relacionados ao desenvolvimento de aplicações em C# registradas no ambiente de programação do Banco Master.

Uma das funções identificadas pela perícia permitia extrair de arquivos PDF uma página específica — justamente a página destinada à assinatura.

A investigação também encontrou um arquivo compactado chamado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior. Dentro dele havia 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas de Termos de Consentimento.

O procedimento permitia separar as assinaturas dos documentos originais e deixá-las disponíveis para posterior utilização na montagem de novos arquivos.

Assinatura digital revelou diferença entre datas

A perícia encontrou uma das principais evidências da manipulação ao comparar as datas registradas nos documentos com os metadados das assinaturas digitais.

As Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) eram extraídas em lotes e posteriormente encaminhadas para assinatura.

Em 20 de junho de 2025, uma força-tarefa foi organizada para assinar os documentos. Segundo o material analisado pela PF, 675 CCBs foram distribuídas para cada um de quatro operadores.

As assinaturas foram realizadas com o Adobe Acrobat Reader, utilizando certificados digitais vinculados ao Banco Master e um certificado individual.

O procedimento deixou registros que permitiram aos peritos reconstruir a cronologia dos arquivos.

Em determinados documentos, a data impressa no corpo da CCB era anterior. Um dos exemplos indicava 21 de janeiro de 2025, enquanto o registro criptográfico da assinatura apontava que o arquivo havia sido efetivamente assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.

A diferença, segundo a PF, indicaria que documentos apresentados como antigos foram assinados posteriormente.

Datas foram apagadas dos documentos

A investigação identificou também tentativas de retirar informações que pudessem revelar a verdadeira origem dos arquivos.

Em uma conversa realizada no Teams em 20 de junho, Allan Machado pediu que Moacir Lourenço da Silva Junior removesse a data de um Termo de Consentimento.

A perícia encontrou posteriormente um exemplo concreto. Um documento referente a Genilson Lima Leal apresentava originalmente a informação 24/02/2023 às 13h05.

Esse registro foi retirado visualmente em uma edição realizada em 3 de julho de 2025.

A alteração, porém, não eliminou todos os vestígios. Segundo a perícia, outros registros digitais permaneceram capazes de revelar a cronologia do arquivo e permitir a comparação entre a data indicada no documento e o momento em que ele foi efetivamente manipulado ou assinado.

CCBs, procurações e termos viravam um único PDF

Depois de produzidas, assinadas e editadas, as diferentes peças eram reunidas.

Segundo a PF, o PDF24 era utilizado para combinar CCBs, procurações e Termos de Consentimento em um único arquivo.

Os documentos finais eram organizados em diretórios internos relacionados às demandas do BRB e da Tirreno, incluindo pastas identificadas com lotes de 2.700, 299 e 119 amostras.

O procedimento criava um dossiê documental para cada operação, reunindo em um único arquivo peças produzidas ou modificadas separadamente.

Comprovantes bancários também foram alterados

A investigação encontrou indícios de que a tentativa de eliminar rastros alcançou até os comprovantes de transferências.

Em junho de 2025, funcionários discutiram a possibilidade de modificar documentos relacionados a operações feitas por PIX e pelo sistema de pagamentos.

A preocupação estava em informações que poderiam associar os comprovantes às operações originais. Entre os campos que se pretendia retirar estavam o evento, o número do contrato e o histórico.

Em alguns comprovantes aparecia, por exemplo, a identificação “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”.

As conversas revelam ainda uma dificuldade operacional: alterar manualmente milhares de documentos seria inviável. Em determinado diálogo, uma funcionária afirmou que conseguiria modificar arquivos isolados, mas não teria condições de repetir o procedimento em 2.700 comprovantes.

Auditoria também identificou inconsistências

A estrutura investigada precisou lidar ainda com questionamentos de auditoria.

Mensagens internas mostram discussões sobre documentos solicitados pela Deloitte, incluindo CCBs e Termos de Consentimento relacionados à carteira da Tirreno.

Em uma conversa, funcionários discutiram qual justificativa poderia ser apresentada para explicar inconsistências encontradas durante a análise.

Segundo a PF, chegou a ser sugerida a alegação de que os problemas seriam resultado de um “erro operacional na seleção”.

Para os investigadores, o episódio reforça a suspeita de que havia preocupação em criar explicações para divergências encontradas na documentação.

Vorcaro recebeu conjunto de documentos

A investigação também aponta que a documentação produzida chegou à alta direção do Banco Master.

Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro pediu a Alberto Felix de Oliveira Neto um conjunto de 300 operações com assinatura digital.

O pedido envolvia um “kit” de documentos. Na sequência, foram encaminhados arquivos relacionados a CCBs, procurações e assinaturas.

O episódio, segundo a PF, demonstra que o material produzido pela estrutura não permanecia restrito às equipes operacionais responsáveis pela montagem dos documentos.

Como funcionava a estrutura investigada

A dinâmica descrita pela Polícia Federal seguia uma sequência relativamente simples, mas executada em escala:

  • 1. Coleta: dados de clientes e operações antigas eram retirados dos sistemas internos.
  • 2. Produção: as informações alimentavam modelos de documentos e permitiam gerar milhares de procurações.
  • 3. Separação: páginas de assinatura eram extraídas de arquivos originais.
  • 4. Assinatura: CCBs eram assinadas digitalmente em lotes.
  • 5. Edição: datas e informações capazes de revelar a origem dos documentos eram removidas ou modificadas.
  • 6. Montagem: CCBs, procurações e termos eram reunidos em novos PDFs.
  • 7. Apresentação: os arquivos eram organizados como dossiês de operações atribuídas à Tirreno.
  • 8. Rastreamento: a perícia digital identificava inconsistências entre datas, assinaturas e registros dos arquivos.

Tecnologia deixou rastros

Apesar das tentativas de alterar a documentação, a investigação conseguiu reconstruir parte da sequência de produção dos arquivos.

A diferença entre as datas impressas nas CCBs e os registros criptográficos das assinaturas foi um dos principais elementos identificados pela perícia.

O mesmo ocorreu com documentos que tiveram datas retiradas visualmente. A exclusão de uma informação da imagem não significava necessariamente o desaparecimento de todos os registros digitais associados ao arquivo.

Segundo a Polícia Federal, a combinação de bancos de dados, planilhas, automação de documentos, programação, certificados digitais e editores de PDF permitiu produzir grandes quantidades de material em pouco tempo.

A suspeita investigada é que essa estrutura tenha sido usada para criar documentação capaz de sustentar como legítimas operações de crédito que, segundo a PF, não teriam lastro correspondente.

O caso ainda está sob investigação das autoridades, que buscam esclarecer a participação de cada envolvido e a extensão das operações relacionadas às carteiras atribuídas à Tirreno e posteriormente negociadas pelo Banco Master com o BRB.