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BC aponta suspeita de propina de R$ 12 milhões no Banco Master

Sindicância identificou possível recebimento de valores por dois servidores e apontou contratos que teriam sido usados para ocultar pagamentos

BC aponta suspeita de propina de R$ 12 milhões no Banco Master
Banco Central Crédito: Reprodução/EBC

O Banco Central identificou indícios de que dois servidores da instituição teriam recebido cerca de R$ 12 milhões em propinas relacionadas ao Banco Master, segundo investigação interna conduzida pela autarquia. A apuração aponta que os pagamentos teriam sido disfarçados por meio de negócios e contratos com empresas ligadas a pessoas próximas de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira.

De acordo com a sindicância, Paulo Sérgio Neves de Souza, que chegou a ocupar o cargo de diretor de Fiscalização do Banco Central, teria recebido aproximadamente R$ 8 milhões. O ex-chefe de supervisão bancária Belline Santana teria recebido outros R$ 4 milhões.

Os investigadores internos apontaram suspeitas de que operações imobiliárias e contratos de prestação de serviços tenham sido utilizados como justificativa formal para movimentações financeiras que, na avaliação do BC, podem ter origem ilícita.

A apuração começou, entre outros fatores, após relatos de funcionários sobre um padrão de despesas considerado incompatível com os rendimentos dos dois servidores ao longo da carreira pública. Uma denúncia anônima também foi incorporada às informações analisadas pelo Banco Central.

Evolução patrimonial chamou atenção do Banco Central

Um dos principais elementos considerados na sindicância foi a evolução patrimonial dos servidores.

A análise realizada pelo BC apontou crescimento dos patrimônios de Paulo Sérgio e Belline que, segundo a investigação, não seria compatível com os rendimentos obtidos durante o período em que exerceram funções no serviço público.

Os dois estão afastados de suas atividades desde janeiro. Além de não exercerem os cargos, eles foram impedidos de acessar as instalações e os sistemas do Banco Central.

Em março, foi instaurado um processo administrativo disciplinar no âmbito da Controladoria-Geral da União (CGU). O procedimento poderá resultar na demissão dos servidores.

As informações reunidas pelo Banco Central também foram encaminhadas à Polícia Federal, que investiga o caso na esfera criminal.

Ex-diretor atribui R$ 8 milhões à venda de sítio

Durante a apuração, Paulo Sérgio apresentou uma explicação para a evolução de seu patrimônio.

O ex-diretor afirmou que os valores tiveram origem na venda de um sítio localizado em Minas Gerais para a Pipe Participações, empresa ligada a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.

Segundo o relato apresentado pelo servidor, depois da venda do imóvel, ele, o irmão e Zettel continuaram mantendo relações comerciais. Entre os negócios citados estaria o arrendamento das mesmas terras que haviam sido vendidas à empresa.

Para Paulo Sérgio, essas operações explicariam os recursos recebidos.

A sindicância do Banco Central, no entanto, chegou a uma conclusão diferente. Para a comissão responsável pela apuração, há indícios de que o contrato de compra e venda do imóvel tenha sido utilizado apenas como fachada para justificar o recebimento dos valores.

O BC também considerou que outros negócios envolvendo Paulo Sérgio e Fabiano Zettel poderiam estar relacionados ao mesmo esquema investigado.

Servidor diz ter recebido R$ 4 milhões por consultoria

A situação de Belline Santana envolve uma segunda frente de investigação.

O ex-chefe de supervisão bancária afirmou que os aproximadamente R$ 4 milhões recebidos por ele eram referentes a serviços de consultoria prestados à Varajo Consultoria, empresa de Leonardo Palhares, apontado pelos investigadores como uma pessoa ligada à estrutura de Daniel Vorcaro.

Inicialmente, Belline teria realizado os trabalhos como pessoa física. Posteriormente, abriu a empresa Inspiração Projetos Educacionais, que passou a receber os pagamentos.

De acordo com a justificativa apresentada pelo servidor ao Banco Central, a consultoria estava relacionada à criação de um projeto de educação financeira voltado para jovens moradores de regiões periféricas.

A sindicância, porém, considerou que a documentação apresentada não demonstrava de forma consistente a realização de um trabalho que pudesse justificar pagamentos de milhões de reais.

Para a comissão, os contratos firmados entre Belline e a empresa poderiam ter servido para encobrir o recebimento irregular de dinheiro de pessoas com interesse em decisões do Banco Central.

BC rejeitou justificativas apresentadas pelos servidores

Segundo informações obtidas durante a investigação, Paulo Sérgio e Belline negaram ter conhecimento de que as empresas envolvidas nas transações mantinham relações com Daniel Vorcaro ou com o Banco Master.

Os dois também apresentaram documentos e explicações para justificar a origem dos recursos e a evolução de seus patrimônios.

Ao concluir a sindicância, porém, o Banco Central avaliou que as justificativas apresentadas não eram suficientes para afastar as suspeitas identificadas durante a apuração.

A comissão recomendou, por isso, a abertura do processo administrativo na CGU. O procedimento poderá resultar na exoneração dos servidores, caso sejam confirmadas infrações disciplinares.

Na esfera criminal, a Polícia Federal também recebeu os elementos reunidos pelo BC e conduz uma investigação própria.

Defesas negam irregularidades

As defesas de Paulo Sérgio de Souza e Belline Santana afirmaram, na sexta-feira (11), que os dois sempre exerceram suas funções dentro das atribuições legais no Banco Central.

Os advogados também negaram que os contatos mantidos com representantes do Banco Master tenham envolvido qualquer interferência nas atividades de fiscalização da instituição.

Segundo as defesas, as relações com o banco foram estritamente institucionais.

A investigação administrativa e a apuração criminal seguem em andamento, e os indícios apontados pelo Banco Central ainda deverão ser analisados pelas autoridades responsáveis.