O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), surpreendeu integrantes da Polícia Federal ao determinar, durante uma reunião convocada para tratar de outro assunto, a produção do relatório que posteriormente revelou mensagens envolvendo Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes.
A reunião ocorreu em 24 de agosto e havia sido convocada pelo gabinete de Mendonça no fim de semana anterior. Segundo relatos de integrantes da PF, a pauta informada previamente envolvia outro ponto das investigações da Operação Compliance Zero, que apura irregularidades relacionadas ao Banco Master.
A dinâmica do encontro foi confirmada também pela Folha de S.Paulo. De acordo com o jornal, Mendonça iniciou a reunião tratando do tema que havia motivado oficialmente a convocação. Em seguida, apresentou aos investigadores um despacho já preparado determinando uma nova análise das mensagens encontradas no celular de Vorcaro.
A ordem estabelecia prazo de 72 horas para que a Polícia Federal identificasse todas as pessoas mencionadas em conversas que poderiam indicar que o banqueiro teve acesso antecipado a informações sobre a investigação conduzida originalmente pela 10ª Vara Federal do Distrito Federal.
Entre os possíveis envolvidos estavam autoridades com foro no Supremo, incluindo integrantes da própria Corte e o procurador-geral da República. O pedido causou desconforto entre investigadores. Segundo as apurações do UOL e da Folha, integrantes da PF avaliaram que a determinação poderia ultrapassar os limites da atuação do relator e até criar risco de nulidade de parte da investigação do caso Master.
Parte das mensagens que motivaram a ordem de Mendonça, no entanto, não era desconhecida pela Polícia Federal. Trechos já haviam aparecido em relatórios anteriores da própria corporação, embora sem a identificação definitiva de Moraes como interlocutor de Vorcaro.
Relatório revelou conversas com Moraes
O relatório produzido após a determinação de Mendonça reuniu mensagens, registros de chamadas, contratos e outros arquivos encontrados no celular de Vorcaro, apreendido durante a Operação Compliance Zero. A PF entregou o documento em 27 de agosto. Posteriormente, Mendonça retirou o sigilo do material.
A análise revelou conversas atribuídas a Vorcaro com um número relacionado a Moraes, inclusive nos dias imediatamente anteriores à primeira prisão do banqueiro. Em 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou: "Acha que segunda já tenho que estar fora?".
Na véspera da prisão, o banqueiro voltou a demonstrar preocupação com uma possível ação policial e questionou: "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?". Vorcaro foi preso no dia seguinte no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular.
O material também registra uma mensagem na qual Vorcaro pede ajuda envolvendo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
As respostas atribuídas a Moraes não foram recuperadas pela perícia. As mensagens eram enviadas por meio de capturas de tela com o recurso de visualização única do WhatsApp.
PGR questionou ordem de Mendonça
A controvérsia sobre a forma como o relatório foi produzido ganhou uma dimensão jurídica após Paulo Gonet pedir a anulação da apuração. A Procuradoria-Geral da República sustenta que Mendonça não poderia ter determinado por iniciativa própria que a PF aprofundasse uma investigação sobre pessoas específicas, especialmente autoridades com foro no Supremo.
Para Gonet, diante de indícios envolvendo um integrante da Corte, Mendonça deveria ter encaminhado o material ao presidente do STF, Edson Fachin, para que o plenário decidisse se autorizaria ou não o prosseguimento da apuração.
A PGR classificou o procedimento como uma "dupla nulidade" e argumentou que a ordem extrapolou as competências de um magistrado durante a fase pré-processual. A posição da Procuradoria reforça uma das preocupações manifestadas por integrantes da própria Polícia Federal após a reunião de 24 de agosto: a possibilidade de questionamentos sobre a validade jurídica do relatório e seus efeitos sobre a investigação do Banco Master.
Mendonça, por outro lado, sustenta que suas determinações fazem parte da supervisão judicial da investigação. A disputa agora extrapola as mensagens entre Moraes e Vorcaro e coloca em discussão a própria origem do relatório que revelou a relação entre os dois. O caso deverá chegar ao plenário do Supremo, que terá de enfrentar tanto o conteúdo encontrado pela PF quanto os questionamentos sobre a forma como a apuração foi conduzida.
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