Alexandre de Moraes

Moraes editou contrato de R$ 131 milhões do Banco Master

Metadados extraídos do celular de Daniel Vorcaro registram alteração em documento firmado com o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes

Moraes editou contrato de R$ 131 milhões do Banco Master
Alexandre de Moraes Crédito: Gustavo Moreno/STF

Metadados de um contrato de R$ 131,2 milhões firmado entre o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o empresário Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, registram uma edição feita por um perfil identificado como "Ministro Alexandre de Moraes". A informação foi divulgada pelo Estadão nesta terça-feira (1º), a partir de dados extraídos do celular de Vorcaro apreendido pela Polícia Federal.

Segundo os registros analisados pelo jornal, o documento foi aberto e modificado no sistema Office 365 às 23h04 de 15 de janeiro de 2024. Naquele mesmo dia, Vorcaro havia devolvido uma versão revisada da minuta ao escritório.

O escritório Barci de Moraes confirmou que Alexandre de Moraes acessou e editou o contrato. Segundo a banca, o ministro foi consultado pelo setor de compliance para prestar informações sobre possíveis impedimentos legais relacionados à contratação do escritório pelo Banco Master.

Moraes e a defesa de Vorcaro foram procurados sobre a informação, mas, segundo a apuração divulgada nesta terça, não apresentaram manifestação.

Como o contrato foi negociado

A primeira versão da minuta foi enviada do celular de Viviane Barci de Moraes para Daniel Vorcaro em 11 de janeiro de 2024.

Quatro dias depois, em 15 de janeiro, o banqueiro devolveu o arquivo com alterações. Os metadados da versão posteriormente localizada no aparelho de Vorcaro registram que o documento foi aberto e modificado pelo perfil identificado como "Ministro Alexandre de Moraes".

Em 17 de janeiro, Viviane encaminhou ao banqueiro a versão final da minuta. As tratativas seguintes envolveram a assinatura física do acordo e o envio da documentação entre as partes.

O contrato acabou assinado por Vorcaro em 23 de janeiro de 2024. A via assinada foi encaminhada por Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, que também foi preso no âmbito da Operação Compliance Zero.

No dia seguinte, Viviane solicitou o envio da versão assinada digitalmente. As tratativas para a conclusão do acordo prosseguiram por mensagens trocadas entre a advogada e Vorcaro.

Contrato previa mais de R$ 131 milhões

O acordo estabelecia o pagamento de honorários ao escritório Barci de Moraes em 36 parcelas mensais. O valor líquido previsto era de R$ 3 milhões por mês, enquanto o montante bruto chegava a R$ 131.274.351,72 após a incidência de impostos.

Os pagamentos foram interrompidos depois da prisão de Daniel Vorcaro, em novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos. O empresário estava prestes a embarcar para Dubai quando foi detido.

Documentos financeiros apresentados à CPI do Crime Organizado no Senado mostram que o Banco Master efetuou pagamentos ao escritório durante 2024 e 2025. Segundo os dados mencionados na apuração, foram repassados R$ 80.223.653,84 em 22 parcelas.

O contrato e os valores pagos pelo Banco Master ao escritório de Viviane Barci já haviam sido objeto de manifestações públicas da banca. Em março, o escritório informou que prestou serviços de consultoria e atuação jurídica ao banco entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. A banca afirmou ainda ter realizado 94 reuniões e produzido 36 pareceres jurídicos.

Escritório diz que houve consulta sobre impedimento

A confirmação de que Alexandre de Moraes acessou e editou o documento partiu do próprio escritório Barci de Moraes.

De acordo com a explicação apresentada pela banca, a participação do ministro ocorreu porque o setor de compliance solicitou informações sobre a existência de eventual impedimento legal para que o Banco Master contratasse o escritório de Viviane.

A banca sustenta que a contratação foi realizada somente depois da verificação de que não havia impedimento legal.

O escritório também afirma que Alexandre de Moraes nunca julgou, no Supremo Tribunal Federal, processos envolvendo o Banco Master. Essa justificativa já havia sido apresentada pela defesa pública da relação profissional entre a banca e a instituição financeira.

Relação com Vorcaro está no radar da Operação Compliance Zero

A descoberta dos metadados ocorre no contexto das investigações da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas relacionadas ao Banco Master e a Daniel Vorcaro.

Antes da etapa final das negociações do contrato, interlocutores do lado do banqueiro incluíam Leonardo Palhares, advogado que posteriormente se tornou alvo da terceira fase da operação. Segundo as investigações, ele é suspeito de envolvimento em pagamentos ilícitos a diretores do Banco Central.

O celular de Vorcaro tornou-se uma das fontes de informações utilizadas pelos investigadores para reconstruir comunicações e documentos relacionados ao empresário e às empresas ligadas ao Banco Master.

O que os metadados mostram

Os registros digitais apontam que:

  • a primeira minuta foi enviada a Vorcaro em 11 de janeiro de 2024;
  • o banqueiro devolveu o documento com alterações em 15 de janeiro;
  • às 23h04 daquele dia, uma versão do arquivo foi aberta e modificada por um perfil identificado como "Ministro Alexandre de Moraes";
  • a versão final foi encaminhada por Viviane a Vorcaro em 17 de janeiro;
  • o contrato foi assinado pelo banqueiro em 23 de janeiro;
  • os pagamentos previstos no acordo foram interrompidos após a prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.

Os metadados, por si só, registram a identificação do perfil utilizado na edição do arquivo. A confirmação apresentada pelo escritório de Viviane estabelece que o ministro de fato acessou e editou o documento, mas a explicação da banca afirma que isso ocorreu no contexto de uma consulta de compliance sobre eventual impedimento legal.

O caso permanece relacionado às investigações que envolvem o Banco Master e Daniel Vorcaro.