A Polícia Federal indiciou 25 pessoas na Operação Overclean, investigação que apura um suposto esquema de corrupção, fraude em licitações, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro. Entre os indiciados está o empresário José Marcos Moura, conhecido como “Rei do Lixo” na Bahia, além dos irmãos empresários Alex Rezende Parente e Fábio Rezende Parente.
Segundo a PF, o grupo investigado teria movimentado cerca de R$ 1,4 bilhão em contratos fraudulentos e obras superfaturadas. A investigação começou no fim de 2024 e avançou por diferentes etapas até chegar ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O novo indiciamento representa mais um capítulo de uma investigação que já passou por nove fases, envolveu empresários, servidores públicos e políticos e alcançou contratos relacionados a órgãos federais, estados e municípios.
O caso também já havia sido acompanhado pelo Correio da Manhã, que revelou, desde o início da operação, a dimensão política e empresarial que envolvia Marcos Moura e seus negócios na Bahia.
Quem é o ‘Rei do Lixo’ indiciado pela PF
José Marcos Moura é empresário do setor de limpeza urbana e ganhou notoriedade na Bahia pelo apelido de “Rei do Lixo”. Ele foi preso na primeira fase da Operação Overclean, deflagrada em dezembro de 2024.
Na época, o Correio da Manhã mostrou que a prisão de Moura colocou no centro das investigações as relações entre negócios privados, contratos públicos e articulações políticas em Salvador e na Bahia. A reportagem publicada pelo jornal em dezembro de 2024 também apontou a proximidade do empresário com o ex-prefeito de Salvador ACM Neto e destacou a presença de empresas ligadas a Moura em contratos de limpeza urbana. A operação, porém, não ficou restrita ao setor de coleta de lixo.
As investigações passaram a examinar contratos de pavimentação, limpeza urbana e obras públicas financiados com recursos federais, inclusive por meio de emendas parlamentares.
Esquema investigado na Operação Overclean
De acordo com as investigações, empresas ligadas aos principais alvos teriam atuado para obter contratos públicos por meio de fraudes em licitações e direcionamento de concorrências.
A suspeita é de que o grupo utilizasse empresas para vencer contratos, com posterior superfaturamento e desvio de recursos públicos. A investigação também apura o pagamento de propina a agentes públicos e mecanismos utilizados para ocultar ou lavar o dinheiro.
A Receita Federal informou, quando a operação foi deflagrada, que a organização investigada havia movimentado aproximadamente R$ 1,4 bilhão e celebrado cerca de R$ 825 milhões em contratos somente em 2024 com diferentes órgãos públicos.
Entre os órgãos que aparecem na investigação estão o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) e a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf).
Empresas de Marcos Moura movimentaram milhões em transações suspeitas
A dimensão financeira da investigação aumentou ao longo das fases da Overclean. Em 2025, informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) analisadas pela PF apontaram que uma empresa ligada a Marcos Moura realizou cerca de R$ 861 milhões em transações classificadas como suspeitas entre 2014 e 2025.
Os investigadores também identificaram movimentações suspeitas atribuídas diretamente ao empresário. Segundo informações obtidas na época, Moura teria movimentado cerca de R$ 80 milhões em operações classificadas como suspeitas.
O material financeiro passou a ser considerado importante para compreender como o dinheiro circulava entre empresas e pessoas relacionadas à investigação.
PF também investiga empresários irmãos Alex e Fábio Parente
Além de Marcos Moura, o indiciamento alcança os irmãos Alex Rezende Parente e Fábio Rezende Parente, apontados desde a primeira fase como integrantes centrais do grupo investigado.
As empresas ligadas aos irmãos aparecem em contratos públicos investigados pela PF. Entre elas está a Allpha Pavimentações, que recebeu recursos de contratos vinculados ao DNOCS.
A investigação identificou ainda a atuação de pessoas ligadas ao órgão federal, entre elas Lucas Maciel Lobão Vieira, ex-coordenador do DNOCS na Bahia, que também foi indiciado nesta etapa. Outro ex-coordenador do órgão, Rafael Guimarães de Carvalho, está entre os 25 indiciados.
Overclean começou no DNOCS e chegou ao STF
A Operação Overclean foi deflagrada em 10 de dezembro de 2024 pela Polícia Federal, com participação do Ministério Público Federal, Receita Federal e Controladoria-Geral da União.
Na primeira fase, a investigação mirava uma organização suspeita de atuar em fraudes licitatórias, desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro. As ordens judiciais foram cumpridas em diferentes estados, incluindo Bahia, Tocantins, São Paulo, Minas Gerais e Goiás.
A quebra de sigilos, a análise de documentos e informações financeiras e novas diligências levaram os investigadores a ampliar o número de envolvidos e a identificar possíveis conexões com parlamentares.
Em janeiro de 2025, a investigação foi encaminhada ao Supremo Tribunal Federal após o surgimento de elementos envolvendo autoridades com foro.
Nona fase teve Félix Mendonça como alvo
A mais recente fase ostensiva da Overclean ocorreu em 13 de janeiro de 2026, quando PF, CGU e Receita Federal cumpriram nove mandados de busca e apreensão na Bahia e no Distrito Federal. A ação foi autorizada pelo STF e teve como principal alvo o deputado federal Félix Mendonça Júnior (PDT-BA). Na ocasião, o Supremo determinou o bloqueio de R$ 24 milhões em contas de pessoas físicas e jurídicas investigadas.
Segundo a PF, os investigados poderiam responder por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, fraude em licitações e contratos administrativos e lavagem de dinheiro.
O novo indiciamento reúne empresários e agentes públicos que, segundo a investigação, teriam diferentes níveis de participação no esquema. Além de Marcos Moura, Alex e Fábio Parente e dos ex-coordenadores do DNOCS Lucas Lobão e Rafael Guimarães, outros 22 investigados foram indiciados por crimes que incluem corrupção, fraude à licitação, peculato, organização criminosa, embaraço à investigação e lavagem de dinheiro.
O indiciamento é uma conclusão da autoridade policial sobre a existência de elementos que apontem para a prática de crimes e a participação dos investigados. Não equivale a uma condenação.
No STF, o caso continua sob relatoria do ministro Kassio Nunes Marques, que determinou diligências relacionadas à investigação e autorizou fases posteriores da operação. A apuração, portanto, ainda pode produzir novos desdobramentos, principalmente em relação aos contratos públicos, às movimentações financeiras e às suspeitas envolvendo autoridades com foro.
Correio da Manhã acompanha a Operação Overclean desde o início
O Correio da Manhã acompanha os desdobramentos da Operação Overclean desde sua primeira fase.
- Em dezembro de 2024, o jornal publicou reportagem sobre a prisão de José Marcos Moura e os negócios que colocaram o empresário no centro da investigação.
- Em janeiro de 2025, a Coluna Magnavita voltou ao caso para analisar as relações políticas e empresariais que surgiram a partir das apreensões realizadas pela PF.
- Já em janeiro de 2026, o Correio da Manhã noticiou a nona fase da operação, que teve Félix Mendonça Júnior como principal alvo e envolveu bloqueio judicial de R$ 24 milhões.
A nova etapa, com o indiciamento de 25 pessoas, amplia o alcance da investigação e reforça a dimensão do caso: a Overclean deixou de ser uma apuração localizada sobre contratos públicos na Bahia e passou a investigar uma rede que envolve empresários, agentes públicos, recursos de emendas parlamentares e autoridades com foro no STF.
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