O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, criticou nesta quarta-feira (12) a decisão do governo dos Estados Unidos de anunciar e avançar com a indicação de Daniel Perez para a embaixada americana no Brasil antes da concessão do agrément, autorização formal necessária para que um representante diplomático seja aceito pelo país onde irá atuar.
A declaração foi feita durante audiência na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados. Segundo Amorim, Washington teria desrespeitado procedimentos diplomáticos ao tornar pública a indicação e encaminhar o nome ao Senado americano sem antes obter a concordância do governo brasileiro.
“O que aconteceu bizarramente nesse caso é que os Estados Unidos não seguiram de maneira nenhuma as convenções internacionais”, afirmou o assessor.
Amorim também classificou como mais grave o fato de o processo de aprovação no Congresso americano ter avançado sem que o Brasil tivesse concedido o agrément ao indicado.
Para o assessor, a condução do processo representa um novo ponto de tensão nas relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.
Amorim questiona momento da indicação
Durante a audiência, Amorim também levantou dúvidas sobre o momento escolhido pelo governo de Donald Trump para indicar o novo embaixador.
O assessor lembrou que a embaixada americana em Brasília permaneceu sem um embaixador titular por mais de um ano após o fim da gestão de Joe Biden. Nesse período, a representação diplomática foi conduzida por uma encarregada de negócios.
Na avaliação de Amorim, a indicação de Perez ocorreu de maneira acelerada e em um momento próximo às eleições brasileiras de 2026, o que, segundo ele, levanta questionamentos sobre possíveis motivações políticas.
“Isso não aconteceu por acaso”, declarou o assessor.
Amorim afirmou ainda que o governo americano teria demonstrado pouco interesse na representação diplomática no Brasil durante o período em que o posto permaneceu sem um titular.
Quem é Daniel Perez
Daniel Perez foi indicado por Donald Trump para assumir a embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
Filho de imigrantes cubanos, Perez é integrante do Partido Republicano e ocupa a presidência da Câmara dos Deputados da Flórida.
A indicação já recebeu parecer favorável de uma comissão do Senado dos Estados Unidos, mas ainda precisa ser submetida ao plenário da Casa.
Além da aprovação pelo Congresso americano, a nomeação depende do agrément do governo brasileiro para que o diplomata possa assumir oficialmente o posto no país.
Brasil ainda não concedeu agrément
O impasse entre os dois governos se agravou no início deste mês, quando o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Segundo a justificativa apresentada pelo governo americano, a medida estaria relacionada à demora do Brasil em conceder o aval diplomático para a indicação de Perez.
Washington afirmou que o visto de Viotti poderá ser restabelecido caso o governo brasileiro conceda o agrément ao indicado para a embaixada em Brasília.
O episódio acrescentou uma nova frente de tensão à relação entre os dois países, que já vinha sendo marcada por divergências diplomáticas e comerciais.
Embaixada dos EUA está sem titular desde 2025
O cargo de embaixador dos Estados Unidos no Brasil está vago desde janeiro de 2025, quando terminou a missão de Elizabeth Bagley.
Desde então, a representação americana em Brasília é comandada pela encarregada de negócios Natasha Franceschi.
A discussão sobre a indicação de Daniel Perez ocorre, portanto, em meio a um longo período de ausência de um embaixador titular americano no Brasil e a uma fase de maior tensão entre Brasília e Washington.
A concessão do agrément pelo governo brasileiro é um dos pontos que ainda precisam ser resolvidos antes que o processo de nomeação de Perez possa avançar definitivamente.
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