Considerando as chapas dos candidatos que concorrerão para a Presidência da República em outubro, esta será a primeira vez desde a redemocratização do país em que somente um dos candidatos formou uma coligação e todos os demais candidatos formaram uma chapa puro-sangue, ou seja, quando os candidatos a titular e vice são do mesmo partido.
O anúncio feito na quarta-feira (5) de que o deputado Alfredo Gaspar (AL) será o candidato a vice-presidente na chapa do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, sacramentou a tendência. Seguida também pelo PSD, com Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab; pelo Novo, com Romeu Zema e Eduardo Girão, e pelo Missão, com Renan Santos e Aroldo Medina.
Entretanto, devido a repercussões negativas envolvendo Gaspar (diante de uma suposta investigação contra ele por suposto de vulnerável, que ele nega), circulou a possiblidade de Flávio voltar atrás com a indicação e trocar de vice. No entanto, questionado pela reportagem, o presidente do PL Valdemar Costa Neto negou que o partido se preocupe com as acusações contra Gaspar.
Só Lula
Assim, a única exceção entre os candidatos é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que terá novamente como vice Geraldo Alckmin (PSB). Lula conseguiu unificar em torno de si os partidos de esquerda, inclusive o PDT, que na maioria das vezes tendeu por um candidato próprio (em 2022, concorreu com Ciro Gomes, hoje no PSDB). Mas mesmo Lula, desta vez, não conseguiu apoios mais ao centro.
Na verdade, os partidos do Centrão, como União Brasil, PP, Republicanos e MDB declararam neutralidade no primeiro turno, liberando que diretórios regionais firmem alianças com palanques locais de diferentes matizes ideológicos, de acordo com a conveniência em cada estado.
Pragmatismo
Para o Correio da Manhã, o consultor de Análise Política da BMJ Consultores Associados Érico Oyama avaliou que as estratégias partidárias em não formarem coligações partidárias se trata de “necessidade.
“As candidaturas sem coligação são fruto de um pragmatismo dos partidos de centro, que priorizaram as eleições para o Legislativo e cautela mediante à possibilidade de novas revelações em inquéritos que envolvem os principais candidatos e entes próximos”, ele avaliou.
Na mesma linha, o cientista político Márcio Coimbra ponderou que, além do pragmatismo tático dos partidos de centro, a opção por chapas puro-sangue também reflete uma polarização do cenário político.
“No campo da oposição, a dificuldade de atrair siglas moderadas para um projeto nacional comum e a busca por preservar a identidade ideológica sem conceder a vaga de vice impulsionaram a escolha por composições estritamente partidárias”, afirmou para o Correio da Manhã.
Questionado pela reportagem, o cientista político avaliou que o cenário é um recorte da atual conjuntura política do país e não necessariamente “uma ruptura definitiva com a mecânica do presidencialismo de coalizão”.
“A necessidade de construir governabilidade no Congresso Nacional continuará impondo a formação de maiorias heterogêneas no pós-pleito, o que significa que a articulação de alianças foi apenas postergada para o segundo turno ou para a montagem dos ministérios. A mudança tática momentânea decorre da percepção de que antecipar uma coligação formal reduz a flexibilidade política e eleitoral de legendas que preferem calibrar seu apoio conforme o resultado das urnas”, destacou Coimbra.
Nova política
Por outro lado, o especialista em Marketing Político Leandro Coutinho pontuou que há uma mudança na forma de fazer política e na comunicação política que leva o candidato ao eleitor, diante da digitalização e das novas maneiras de se comunicar via redes sociais.
“Essa mudança na lógica da política foi tomada pelo espetáculo dos memes e das trends em detrimento do debate em torno das soluções para as demandas do eleitor. Isso abre espaço para apostas em candidatos que outrora seriam considerados meras caricaturas, mas que hoje podem se converter em personagens eleitos. É uma tendência mundial, basta ver que até entrar em guerra com a Rússia, Volodymyr Zelensky era apenas um humorista que virou presidente”, ponderou o especialista em marketing em conversa com o Correio.
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