Pouco antes do governo dos Estados Unidos (EUA) revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e o governo brasileiro definir que adotará o princípio da reciprocidade contra os EUA, o ministro da Defesa, José Múcio, deu uma declaração polêmica.
Durante um evento no começo desta semana, ele disse que, em um eventual cenário de intervenção dos Estados Unidos, o Brasil não teria condições de enfrentar militarmente o governo norte-americano e, portanto, ele iria “abrir o portão” para os EUA.
“Dia desses um jornalista me perguntou: ‘Se os Estados Unidos quiserem invadir o Brasil, o que o senhor faz como ministro da Defesa?’. Abrir o portão, porque a gente não tem equipamento para enfrentá-los nem tem dinheiro para consertar o portão. Eu prefiro abrir o portão”, disse o militar, em tom de brincadeira, durante participação em evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A declaração não foi bem avaliada por membros do governo federal, tampouco pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nos bastidores, a informação é que Lula se irritou profundamente com a declaração do ministro e se reunirá pessoalmente com ele para tratar do assunto. Vale destacar que a fala contradiz a narrativa do governo federal e da diplomacia brasileira em reafirmar a soberania brasileira.
Manifestação infeliz
Ao Correio da Manhã, o pró-reitor de Internacionalização da Estácio Brasília e especialista em Relações Internacionais, Murilo Borsio Bataglia, avaliou a declaração do ministro como uma “manifestação politicamente infeliz diante do atual contexto interno e internacional”.
“Em período pré-eleitoral, pronunciamentos de integrantes do primeiro escalão do governo naturalmente recebem maior repercussão e são interpretados como sinais da posição institucional do Estado. Ao mesmo tempo, o Brasil atravessa um momento de tensão diplomática e comercial com os Estados Unidos, marcado pela imposição de tarifas sobre produtos brasileiros e pelo fortalecimento do discurso oficial de defesa da soberania nacional. Nesse cenário, qualquer manifestação relacionada à capacidade de defesa do país tende a produzir efeitos que extrapolam o debate interno”, avaliou o internacionalista.
Por outro lado, ele ponderou que a fala também ser interpretada como um alerta para a necessidade de fortalecimento da capacidade de defesa brasileira.
Questionado pela reportagem, o especialista em relações internacionais avaliou como recomendável uma manifestação do Itamaraty, a fim de evitar possíveis interpretações equivocadas e reforçar que manifestações individuais não alteram os compromissos jurídicos e políticos assumidos pelo Estado perante a comunidade internacional.
“A diplomacia brasileira tradicionalmente busca transmitir previsibilidade, estabilidade e coerência em suas posições internacionais. Uma nota de esclarecimento poderia reforçar que a política externa do Brasil permanece orientada pelos princípios constitucionais previstos no artigo 4º da Constituição Federal, especialmente a independência nacional, a autodeterminação dos povos, a não intervenção e a solução pacífica das controvérsias”, destacou Bataglia.
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