Correio da Manhã
Política

Ataques de Milei ampliam tensão diplomática

Situação leva campanha de Flávio ao cenário internacional

Ataques de Milei ampliam tensão diplomática
Javier Milei discursou na convenção do PL Crédito: André Souza

O discurso do presidente da Argentina, Javier Milei, durante a convenção nacional do PL, no último sábado (25), extrapolou os limites do ato partidário que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.

As críticas dirigidas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes desencadearam uma reação do governo brasileiro, mobilizaram o Itamaraty e ampliaram a dimensão internacional da disputa presidencial antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral.

Durante o evento, Milei declarou apoio explícito à candidatura de Flávio, atacou o governo brasileiro, classificou Lula como responsável pelo avanço do socialismo na América Latina e ofendeu Alexandre de Moraes. O episódio rapidamente ultrapassou o ambiente político e passou a repercutir também no campo diplomático.

Insatisfação

No domingo (26), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, recebeu o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para manifestar a insatisfação do governo brasileiro com as declarações. Também se reuniu com o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para avaliar os impactos do episódio na relação bilateral. De acordo com interlocutores do governo, os dois voltarão a conversar após o retorno de Vieira da viagem oficial ao Peru.

As declarações também provocaram manifestações de outras autoridades. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, afirmou que os ataques representam uma referência desrespeitosa a um integrante da Suprema Corte brasileira e classificou as falas como incompatíveis com a civilidade esperada nas relações entre Estados.

Já nesta segunda-feira (27), Lula evitou ampliar a polêmica. Ao ser questionado por jornalistas sobre Milei durante agenda no Palácio Itamaraty, respondeu com ironia: "Quem é esse cara?". Na mesma linha, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a economia brasileira apresenta desempenho superior ao da Argentina e chamou o presidente argentino de "palhaço", ao comentar o episódio em entrevista à Rádio Jornal, de Pernambuco.

A repercussão também chegou ao campo jurídico. Nesta segunda-feira (27), o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou uma notícia de fato na Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo a abertura de investigação contra Flávio Bolsonaro, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e demais envolvidos na organização da convenção.

Na representação, o parlamentar sustenta que a exibição do vídeo durante a convenção, produzido por inteligência artificial simulando Jair Bolsonaro, e a participação de Javier Milei no ato partidário podem configurar infrações eleitorais e criminais. Entre os argumentos apresentados estão a suposta propaganda eleitoral antecipada, o uso de conteúdo sintético em contexto eleitoral, eventual descumprimento das restrições impostas ao ex-presidente e a participação de um chefe de Estado estrangeiro em atividade de propaganda política no Brasil.

Estratégia

Para o cientista político Leandro Gabiati, a presença de Milei deve ser interpretada menos como uma tentativa de ampliar votos e mais como um movimento para fortalecer Flávio dentro do próprio campo da direita.

Segundo ele, o apoio internacional funciona como um selo de legitimação da candidatura junto ao eleitorado bolsonarista, especialmente em um momento em que o senador enfrenta questionamentos sobre sua viabilidade eleitoral.

"A presença de Milei é uma mensagem de validação dentro da própria direita. É uma forma de reforçar a candidatura de Flávio entre os eleitores que já se identificam com esse grupo político", afirma.

Na avaliação do especialista, esse tipo de estratégia tende a produzir pouco efeito entre os eleitores moderados, que costumam priorizar temas como economia, segurança pública e saúde no momento de definir o voto.

Internacionalização

O episódio ocorre poucos dias depois de Flávio Bolsonaro voltar a questionar o sistema eletrônico de votação durante encontro com embaixadores estrangeiros, retomando um discurso semelhante ao adotado por Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. A sequência dos acontecimentos levou o debate eleitoral para além das fronteiras brasileiras.

Em meio às repercussões, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou para 17 de agosto uma reunião com diplomatas e embaixadores para apresentar o funcionamento das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro. A iniciativa ocorre dias após o governo brasileiro negar vistos a dois integrantes da administração norte-americana ao identificar que a viagem teria como objetivo discutir o processo eleitoral brasileiro em articulação política.

Para Gabiati, embora o episódio tenha passado a exigir uma resposta institucional do Estado brasileiro, dificilmente terá impacto isolado sobre o resultado das eleições. O cientista político avalia, no entanto, que a internacionalização da campanha pode aumentar a resistência do eleitor de centro à candidatura de Flávio Bolsonaro.

"Quando um candidato busca apoio externo ou leva uma disputa que deveria ser doméstica para o plano internacional, isso pode ser percebido de forma negativa por parte do eleitorado moderado. Sozinho, esse episódio não decide uma eleição, mas se soma a outros fatores que influenciam a formação da imagem do candidato", conclui.