O discurso do presidente da Argentina, Javier Milei, durante a convenção nacional do PL, no último sábado (25), extrapolou os limites do ato partidário que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.
As críticas dirigidas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes desencadearam uma reação do governo brasileiro, mobilizaram o Itamaraty e ampliaram a dimensão internacional da disputa presidencial antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral.
Durante o evento, Milei declarou apoio explícito à candidatura de Flávio, atacou o governo brasileiro, classificou Lula como responsável pelo avanço do socialismo na América Latina e ofendeu Alexandre de Moraes. O episódio rapidamente ultrapassou o ambiente político e passou a repercutir também no campo diplomático.
Insatisfação
No domingo (26), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, recebeu o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para manifestar a insatisfação do governo brasileiro com as declarações. Também se reuniu com o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para avaliar os impactos do episódio na relação bilateral. De acordo com interlocutores do governo, os dois voltarão a conversar após o retorno de Vieira da viagem oficial ao Peru.
As declarações também provocaram manifestações de outras autoridades. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, afirmou que os ataques representam uma referência desrespeitosa a um integrante da Suprema Corte brasileira e classificou as falas como incompatíveis com a civilidade esperada nas relações entre Estados.
Já nesta segunda-feira (27), Lula evitou ampliar a polêmica. Ao ser questionado por jornalistas sobre Milei durante agenda no Palácio Itamaraty, respondeu com ironia: "Quem é esse cara?". Na mesma linha, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a economia brasileira apresenta desempenho superior ao da Argentina e chamou o presidente argentino de "palhaço", ao comentar o episódio em entrevista à Rádio Jornal, de Pernambuco.
A repercussão também chegou ao campo jurídico. Nesta segunda-feira (27), o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou uma notícia de fato na Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo a abertura de investigação contra Flávio Bolsonaro, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e demais envolvidos na organização da convenção.
Na representação, o parlamentar sustenta que a exibição do vídeo durante a convenção, produzido por inteligência artificial simulando Jair Bolsonaro, e a participação de Javier Milei no ato partidário podem configurar infrações eleitorais e criminais. Entre os argumentos apresentados estão a suposta propaganda eleitoral antecipada, o uso de conteúdo sintético em contexto eleitoral, eventual descumprimento das restrições impostas ao ex-presidente e a participação de um chefe de Estado estrangeiro em atividade de propaganda política no Brasil.
Estratégia
Para o cientista político Leandro Gabiati, a presença de Milei deve ser interpretada menos como uma tentativa de ampliar votos e mais como um movimento para fortalecer Flávio dentro do próprio campo da direita.
Segundo ele, o apoio internacional funciona como um selo de legitimação da candidatura junto ao eleitorado bolsonarista, especialmente em um momento em que o senador enfrenta questionamentos sobre sua viabilidade eleitoral.
"A presença de Milei é uma mensagem de validação dentro da própria direita. É uma forma de reforçar a candidatura de Flávio entre os eleitores que já se identificam com esse grupo político", afirma.
Na avaliação do especialista, esse tipo de estratégia tende a produzir pouco efeito entre os eleitores moderados, que costumam priorizar temas como economia, segurança pública e saúde no momento de definir o voto.
Internacionalização
O episódio ocorre poucos dias depois de Flávio Bolsonaro voltar a questionar o sistema eletrônico de votação durante encontro com embaixadores estrangeiros, retomando um discurso semelhante ao adotado por Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. A sequência dos acontecimentos levou o debate eleitoral para além das fronteiras brasileiras.
Em meio às repercussões, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou para 17 de agosto uma reunião com diplomatas e embaixadores para apresentar o funcionamento das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro. A iniciativa ocorre dias após o governo brasileiro negar vistos a dois integrantes da administração norte-americana ao identificar que a viagem teria como objetivo discutir o processo eleitoral brasileiro em articulação política.
Para Gabiati, embora o episódio tenha passado a exigir uma resposta institucional do Estado brasileiro, dificilmente terá impacto isolado sobre o resultado das eleições. O cientista político avalia, no entanto, que a internacionalização da campanha pode aumentar a resistência do eleitor de centro à candidatura de Flávio Bolsonaro.
"Quando um candidato busca apoio externo ou leva uma disputa que deveria ser doméstica para o plano internacional, isso pode ser percebido de forma negativa por parte do eleitorado moderado. Sozinho, esse episódio não decide uma eleição, mas se soma a outros fatores que influenciam a formação da imagem do candidato", conclui.
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