No sábado (25), o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, reforçou o discurso da candidatura “antissistema”. No domingo (26), Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab, tornados candidato a presidente e vice pelo PSD, se apresentaram como os nomes de direita do “sistema”. Na segunda-feira (27), em Brasília, o candidato do Novo, Romeu Zema, colocou-se numa espécie de meio termo entre os dois. Ele não é exatamente um candidato contra “tudo isso que aí está”. Mas faz críticas pesadas ao atual estado de coisas. Suas baterias movem-se especialmente contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT, mas, principalmente, contra o Judiciário, mais especificamente contra o Supremo Tribunal Federal (STF).
Há alguns meses, Zema vem focando suas críticas no Judiciário, atacando aqueles que chama de “Intocáveis”, nomes acima do bem e do mal, na sua avaliação. “Esses ministros são uma vergonha para o STF e também são uma vergonha para o Brasil”, atacou na entrevista coletiva que concedeu após a convenção que homologou, por aclamação (sem contagem de votos) a sua candidatura.
Impeachment
Zema afirmou acreditar que o aumento de senadores de direita a partir do ano que vem levará a uma situação capaz de promover o impeachment de ministros do Supremo. E acrescentou que esse movimento terá o apoio do governo, caso ele seja eleito presidente da República. Questionado sobre quais ministros, na sua avaliação, mereceriam o impedimento, Zema nominou os ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Os dois primeiros, segundo ele, pelo envolvimento com o caso do Banco Master e Mendes pelos eventos que promove nos quais, segundo Zema, reúne integrantes do Judiciário e outros poderes com pessoas do empresariado e do mundo das finanças.
Com relação ao Banco Master, o escritório de advocacia da esposa de Alexandre de Moraes, Viviane Barci, firmou um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master, dos quais recebeu R$ 80 milhões. Já Dias Toffoli deixou a relatoria do caso Master depois que se descobriram relações dele com a instituição presidida por Daniel Vorcaro. Toffoli viajou em um jatinho de Vorcaro e tinha sociedade, com familiares, em um resort no Paraná, o Tayayá, que teve participação vendida para um fundo de investimentos ligado ao Master.
“Não fui eu quem viajou em jatinho dessa gente”, atacou Zema. “Vivo em Belo Horizonte, na mesma cidade em que nasceu, cresceu e começou seus negócios esse senhor”, referindo-se a Daniel Vorcaro. “E nunca me encontrei com ele. Nunca me propôs nada como governador. Até porque assombração sabe muito bem para quem aparece”.
Zema ainda defendeu que a idade mínima para ministros do STF passasse a ser de 60 anos. “Deve ser o coroamento de uma carreira”, pregou ele. Além disso, estabelecida essa idade, os ministros ficariam no máximo 15 anos na Suprema Corte.
Lula e PT
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as pesquisas para a reeleição, o PT, seu partido, também foram alvo de Romeu Zema. “Minha bandeira de vida é ser contra o PT”, afirmou. Zema afirmou: “Eu varri o PT de Minas Gerais e agora vou varrer o PT do Brasil”.
Zema afirmou ter encontrado um estado de “terra arrasada” em Minas quando se elegeu governador. Seu antecessor foi Fernando Pimentel (PT), que hoje preside a Empresa Gestora de Ativos (Emgea). “Hoje, o PT não se cria em Minas Gerais”, disse. “Lula ficou atrás de candidato no estado e não conseguiu. Empurrou o Patrus, que não queria”, completou, referindo-se ao deputado Patrus Ananias (PT), que será o candidato a governador no estado.
Bolsonaro
Apesar das crítica ao Banco Master, Zema evitou atacar diretamente Flávio Bolsonaro, que se envolveu com o caso a partir do vazamento das conversas em que pede dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, a cinebiografia de seu paí, Jair Bolsonaro. Logo que o caso veio à tona, Zema criticou Flávio, mas, desde então, tem refluído em fazer novos ataques.
A posição sobre Flávio foi o tema da pergunta feita pelo Correio da Manhã na coletiva. Zema está 30 pontos atrás de Flávio no cenário de primeiro turno que foi divulgado nesta segunda-feira em pesquisa BTG/Nexus. “Para ir ao segundo turno, o senhor precisa tirar Flávio dele. O senhor baterá em Flávio?”, foi a pergunta. “O que tinha para dizer sobre Flávio, já disse”, respondeu Zema. Que discorreu, então, sobre suas chances na corrida eleitoral. Na pesquisa BTG/Nexus, ele apareceu com 3% das intenções de voto.
“Eu tinha zero quando me candidatei candidato a governador”, respondeu Romeu Zema, referindo-se à eleição de 2018. Depois, em 2022, ele se reelegeu governador.
Zema apresenta-se, desde então, como um empresário que antes nunca tinha tido interesse em entrar na política, mas que resolveu fazer isso diante da indignação com o estado de coisas. “Não sou um político profissional”.
Zema, então, declarou que indultaria o ex-presidente Jair Bolsonaro, que se encontra em prisão domiciliar, condenado a 27 anos de prisão. “Quero que o Brasil resolva injustiças cometidas cometidas em relação aos atos de 8 de janeiro”, declarou. “Temos pessoas que não sabia o que acontecia e foram detidas. Se houve uma tentativa de golpe, que haja um julgamento imparcial, e não um julgamento político”.
Convenção
A convenção do Novo, porém, deixou claras as dificuldades de avanço da candidatura diante do quadro político polarizado. Foi um evento pequeno, com pouca participação tanto de militantes quanto de políticos. A aprovação da candidatura aconteceu num evento fechado, por aclamação.
Logo depois, Zema deu uma coletiva no auditório do Edifício Íon, em Brasília. Ao seu lado, na mesa, o presidente do Novo, Eduardo Ribeiro, o senador Eduardo Girão, que será candidato do partido ao governo do Ceará, e o ex-deputado Deltan Dalagnol, que será candidato ao Senado pelo Paraná.
Como acontecera com o PL no sábado, Zema também demonstrou dificuldades de ampliar sua aliança para outros partidos. Por essa razão, não houve anúncio do candidato a vice-presidente. Zema afirmou que conversa com o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, que se filou à Democracia Cristã (DC), e até ensaiou candidatura à Presidência pelo partido. Foi, porém, segundo ele, uma conversa preliminar.
Seria contradição atacar o STF e ter como vice um ex-ministro da Corte? “Joaquim Barbosa sempre foi o oposto desses que estão hoje lá”, resondeu Zema. O candidato do Novo, porém, não descartou a hipótese de que, ao final, o partido saia com chapa pura.
Apesar das dificuldades, Eduardo Ribeiro apontou para o crescimento do Novo com relação a candidaturas anteriores. Segundo ele, o partido terá 150 candidaturas este ano, a maioria para deputado federal. Embora sempre tenha se declardo contrário, o Novo utilizará os recursos do Fundo Partidário para financiar a candidatura de Romeu Zema. O partido tem cerca de R$ 80 milhões, segundo Ribeiro. “Seria muito difícil entrar com a mesma competitividade sem usar as mesmas armas”, justificou.
Menu