Correio da Manhã
Crise diplomática

Brasil chama embaixador após ataques de Milei a Lula e ao STF

Itamaraty convoca diplomata argentino e traz representante brasileiro em Buenos Aires para consultas após declarações de Javier Milei em convenção do PL

Brasil chama embaixador após ataques de Milei a Lula e ao STF
Javier Milei discursou na convenção do PL Crédito: André Souza

O governo brasileiro decidiu elevar o tom diplomático contra a Argentina após as declarações do presidente Javier Milei durante a convenção nacional do PL, realizada em São Paulo no sábado (25). O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, deve se reunir nesta segunda-feira (27) com o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, convocado para consultas em Brasília.

A medida foi anunciada pelo Itamaraty no domingo (26), em reação às críticas feitas por Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao ministro Alexandre de Moraes durante o evento que oficializou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL).

Itamaraty convoca embaixador argentino

Além de chamar o embaixador brasileiro na Argentina, o governo também convocou o embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos sobre as declarações do presidente argentino em território brasileiro.

O Itamaraty classificou o episódio como "sem precedentes" e "lamentável", afirmando que não há registro recente de um chefe de Estado estrangeiro realizando ataques ao presidente da República, às instituições democráticas brasileiras e ao Poder Judiciário durante visita oficial ao Brasil.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores destacou ainda que a crise ocorre entre dois países que mantêm 203 anos de relações diplomáticas e possuem forte integração econômica, sendo o Brasil o principal parceiro comercial da Argentina.

Mauro Vieira fala em interferência em assuntos internos

Em entrevista à TV Globo, o chanceler Mauro Vieira afirmou que as declarações de Milei foram "ríspidas, grosseiras e inaceitáveis" e caracterizou a fala como uma tentativa de interferência em assuntos domésticos brasileiros.

Segundo o ministro, o governo pretende buscar explicações formais do governo argentino, mas não pretende, neste momento, adotar medidas mais severas, como a retirada do embaixador brasileiro da Argentina.

Vieira ressaltou que a preservação dos canais diplomáticos continua sendo prioridade e que a convocação dos embaixadores tem como objetivo esclarecer os fatos e registrar oficialmente a insatisfação do Brasil.

Discurso de Milei provocou reação do governo brasileiro

Durante a convenção do PL, Javier Milei criticou governos de esquerda na América Latina, elogiou a candidatura de Flávio Bolsonaro e afirmou que o Brasil poderia aderir ao que chamou de uma transformação política liberal na região.

O presidente argentino também chamou Alexandre de Moraes de "lixo careca" após ter sido impedido de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, cuja defesa havia solicitado autorização ao ministro do STF para o encontro.

Milei ainda se referiu a Lula como "presidiário" e afirmou que a negativa para visitar Bolsonaro seria uma demonstração de perseguição política contra o ex-presidente brasileiro.

STF reage às declarações

Horas após o discurso, o presidente do STF, Edson Fachin, divulgou nota condenando as declarações do presidente argentino.

Segundo Fachin, a referência feita a Alexandre de Moraes foi desrespeitosa e incompatível com a civilidade esperada nas relações entre Estados soberanos. O ministro também reafirmou a autonomia do Judiciário brasileiro e destacou que as decisões judiciais mencionadas por Milei foram tomadas conforme a Constituição e as leis brasileiras.

A crise diplomática ocorre em um momento de forte polarização política no Brasil e amplia a tensão nas relações entre os governos de Lula e Javier Milei, que já vinham apresentando divergências públicas em temas políticos e econômicos desde a posse do presidente argentino.