Mesmo após diversas tentativas para barrar as tarifas de 25% a produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos da América (EUA), o governo norte-americano confirmou o tarifaço que deverá começar a ser implementado a partir de 0h desta quinta-feira (16). Durante toda a quarta-feira, enquanto as últimas negociações eram feitas, já não havia mais nenhuma esperança de que a sobretaxação não fosse implementada. A expectativa, porém, do governo e dos segmentos econômicos é que a nova sanção venha com uma lista ampliada de exceções que ficariam isentas, reduzindo o impacto da medida.
O Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, sigla para “United States Trade Representative”) comunicou que as tarifas de 25% impostas a produtos brasileiros são resultado de uma investigação do USTR contra o Brasil por supostas práticas desleais contra o mercado norte-americano. A taxação se baseia na Seção 301 da Lei do Comércio de 1974, que permite que o governo dos EUA investigue e retalie países cujas práticas comerciais sejam consideradas injustas, discriminatórias ou prejudiciais aos interesses americanos.
Também trabalho escravo
Dentre os pontos citados pelos Estados Unidos contra o Brasil estão: o Pix, corrupção, acordos comerciais com outros países, proteção a propriedade intelectual norte-americana (o combate à pirataria), desmatamento ilegal e o acesso ao mercado de etanol. Vale destacar que, para além das taxas de 25%, o departamento de comércio americano ainda acrescentou o Brasil na lista de 60 países que os Estados Unidos acusam de falhar no combate ao trabalho forçado e, consequentemente, determinam uma taxa extra de 12,5%.
Com isso, alguns produtos podem chegar a uma taxação de 37,5%. Caso isso ocorra, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo federal não descarta a possibilidade de aplicar a Lei da Reciprocidade Econômica (Lei n° 15.122/2025). Aprovada pelo Congresso Nacional devido ao primeiro tarifaço, a lei é um marco legal que permite ao governo brasileiro adotar contramedidas contra sanções e barreiras comerciais unilaterais impostas por outros países.
Desde o primeiro comunicado dos EUA sobre o tarifaço, o Ministério de Relações Exteriores e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços têm se articulado com o principal representante do USTR, Jamieson Greer, para tentar impedir o tarifaço. O Palácio do Itamaraty negou todas as acusações de práticas comerciais desleais feitas pelos Estados Unidos, e declaram que o governo dos Estados Unidos não levou em consideração todas as provas apresentadas de que os números de desmatamento ilegal diminuíram, tal como os dados que informam que não há práticas de trabalho forçado no país.
Etanol
A diplomacia brasileira chegou a propor que os EUA reduzisse as taxas de importação sobre o mercado de etanol em troca de mais acesso ao açúcar refinado brasileiro no mercado americano, mas a proposta foi descartada.
Mas apesar de não voltar atrás com a decisão, nos bastidores, circula que Jamieson Greer compreendeu os impactos tarifários para empresários norte-americanos, o que tende a resultar em uma ampliação na lista de exceções de produtos que não serão taxados, especialmente aqueles muito consumidos pelos americanos como café, suco de laranja, carne bovina, dentre outros.
“impacto modesto”
Representantes do setor produtivo aguardam a lista de exceções para se organizarem. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), as taxas atingirão mais de quatro mil produtos nacionais, o equivalente a US$ 15 bilhões. Apesar disso, com as exceções o Ministério da Fazenda avalia um “impacto agregado modesto”.
Ao Correio da Manhã, a internacionalista e especialista em Comércio Internacional na BMJ Consultores Ana Beatriz Zanuni destacou que, apesar de implementação das tarifas representar “um marco negativo para as relações bilaterais” entre Brasil e Estados Unidos, “a criticidade da medida é reduzida em comparação às sobretaxas de 40% em 2025, e com expansão da lista de produtos isentos”. Ela ainda reiterou que “enquanto houver continuidade das tratativas bilaterais entre as autoridades, há margem para novos ajustes no escopo das tarifas”.
Contudo, a internacionalista não descartou as “sensibilidades políticas” que os impactos financeiros resultarão no governo brasileiro. “A medida impacta também o cenário político-eleitoral do país e os movimentos da administração Trump serão usados por todos os campos políticos, em especial pelas candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro. Nesse sentido, um desgaste nas relações diplomáticas poderia ocorrer em caso de posicionamentos dos EUA no contexto eleitoral”, ponderou Zanuni.
Do lado do governo federal, o poder Executivo e o Partidos dos Trabalhadores (PT) já preparam a campanha e a narrativa para associar o tarifaço dos Estados Unidos ao senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como “tariflávio”.
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