Faltando menos de 24 horas para o governo dos Estados Unidos (EUA) definir se implementará (ou não) as tarifas de 25% contra produtos brasileiros, prazo que termina nesta quarta-feira (15), o governo federal se prepara para responder sobre as novas taxas norte-americanas na exportação de produtos brasileiros aos EUA.
Apesar da recente decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em voltar atrás sobre a cobrança de um pedágio de 20% no Estreito de Ormuz, o Palácio do Planalto e especialistas consideram que as chances de Trump desistir do tarifaço são muito baixas.
“É improvável que o governo americano desista totalmente da retórica tarifária, dado o perfil de política externa de Donald Trump. O mais provável é o uso de adiamentos ou a concessão de isenções setoriais em troca de alinhamentos específicos em outras pautas de interesse dos EUA (como propriedade intelectual, regulação digital ou compras governamentais)”, detalhou o professor de Economia do Ibmec Brasília Renan Silva, em conversa com o Correio da Manhã.
Culpa em Flávio
Nos bastidores, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já articula uma nota de repúdio ao governo americano, reiterando a soberania nacional e defendendo o multilateralismo, e direcionará parte da culpa das aplicações das tarifas contra o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Além disso, nesta terça-feira (14) o ministro da Fazenda Dario Durigan afirmou que a equipe econômica do governo federal pode editar uma nova medida provisória (MP) para socorrer os setores da economia que vierem a ser atingidos pelo novo tarifaço. O ministro não descartou que o governo possa vir a acionar a Lei da Reciprocidade.
“A gente chegou a suspender a tramitação do processo de reciprocidade, seguindo a lei do Congresso Nacional, quando houve uma suspensão do tarifaço. Agora, acho que é provável que, uma vez consultado o presidente Lula, retome o processo de reciprocidade”, detalhou Durigan.
Vale destacar que, baseado no histórico do primeiro tarifaço dos EUA ao Brasil em agosto de 2025, uma das justificativas de Trump para implementar as medidas era a investigação contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que era investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e posteriormente foi condenado por tentativa de golpe de Estado. No caso de Flávio, o timing do comunicado das tarifas dos EUA contra o Brasil ter sido feito dias após o encontro entre o senador e o presidente dos Estados Unidos, contribuíram para uma narrativa de responsabilizar o senador.
Do outro lado, a tendência é que Flávio e seus aliados reforcem a narrativa de que as tarifas são resultado de um má relação entre Lula e Donald Trump.
Impactos
O Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) afirma que as tarifas gerais de 25% para produtos brasileiros é resultado de uma investigação de uma suposta prática desleal contra produtos americanos. Cita medidas como o Pix, acordos comerciais com outros países e a proteção de propriedade intelectual norte-americana (combate à pirataria). Além disso, vale destacar que, para além das taxas de 25% os EUA acusam o Brasil de integrar um grupo de países que, em tese, falha no combate ao trabalho forçado, o que pode determinar uma tarifa adicional de 12,5%. Ou seja, se forem confirmadas ambas as tarifas, a taxação contra produtos brasileiros pode chegar a 37,5%.
O economista e gestor de riscos Rodrigo Provazzi avalia que, baseado nas informações disponíveis até o momento, ambas as tarifas “podem ser cumulativas para produtos e setores abrangidos pelas duas medidas, desde que não estejam contemplados nas listas de exceção definidas pelas autoridades americanas”. “Entretanto, a aplicação efetiva dependerá dos regulamentos finais, da classificação tarifária de cada produto e das exceções eventualmente concedidas. Na prática, o impacto tende a ser mais relevante”, ele destacou em entrevista ao Correio da Manhã.
Questionado pela reportagem, Rodrigo Provazzi detalhou que os impactos econômicos estão distribuídos em três frentes: perda de competitividade das exportações brasileiras para os Estados Unidos; o impacto sobre investimentos e planejamento empresarial; e os efeitos indiretos sobre emprego e atividade econômica em setores exportadores.
“O impacto agregado na economia brasileira dependerá da duração das medidas, da existência de negociações diplomáticas e da capacidade das empresas de redirecionar vendas para outros mercados. Além do efeito econômico direto, esse tipo de medida amplia significativamente o risco regulatório e geopolítico para as empresas. Organizações com exposição internacional precisarão fortalecer seus processos de monitoramento de cenário, gestão de riscos e planejamento estratégico para responder com maior velocidade a mudanças na política comercial global”, explicou o economista.
Diplomacia
Desde o começo das acusações dos EUA sobre o suposto comércio desleal brasileiro, o Ministério de Relações Exteriores tem negado todas as acusações. O Itamaraty alega que o governo norte-americano apresenta acusações infundadas contra o Brasil, desconsiderando as provas apresentadas pela diplomacia brasileira.
A reportagem ainda conversou com a internacionalista e especialista em Comércio Internacional na BMJ Consultores Ana Beatriz Zanuni, pontuou que para que o Brasil e os Estados Unidos cheguem a um acordo em relação às tarifas, não necessárias tratativas quem “consideram interesses mútuos em setores como minerais críticos, além de potenciais concessões brasileiras como reduções tarifárias para determinados produtos de origem norte-americana”.
“Maior abertura do mercado brasileiro para equipamentos de tecnologia importados, por exemplo, está na mesa de negociações, considerando o papel estratégico do setor para os EUA. Já alternativas menos brandas, como a adoção de contramedidas via Lei de Reciprocidade Econômica, podem ser consideradas como instrumento de pressão nas negociações, mas tendem a não ser prioridade da diplomacia brasileira”, avaliou Zanuni ao Correio.
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