Correio da Manhã
Política

Senado chama ex‑sócio de Vorcaro para explicar Master na Bahia

Comissão aprova convocação de Augusto Lima para explicar falsos consignados

Senado chama ex‑sócio de Vorcaro para explicar Master na Bahia
Professores da Bahia: uma das origens do esquema Crédito: Governo da Bahia

Enquanto a Polícia Federal (PF) aprofunda as investigações sobre o Banco Master, o Senado decidiu abrir uma nova frente de pressão sobre os envolvidos. A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) aprovou nesta terça-feira (30) a convocação de Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, para prestar esclarecimentos sobre a estrutura de funcionamento da instituição, as negociações com o BRB e a atuação do grupo na Bahia.

O requerimento, de autoria da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), foi aprovado de forma simbólica. Além de Augusto Lima, os senadores também aprovaram o convite ao secretário de Economia do Distrito Federal, Valdivino José de Oliveira, para explicar os impactos fiscais e patrimoniais da crise envolvendo o BRB e o Banco Master.

Augusto Lima já prestou depoimento à Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero. Agora, pela primeira vez, deverá prestar esclarecimentos também ao Senado, em audiência cuja data ainda será definida pela CAE.

Nova fase

A convocação ocorre em um momento em que as investigações já ultrapassaram o mercado financeiro e atingiram diretamente o ambiente político. Nas últimas semanas, as operações da PF tiveram como um dos focos a atuação do grupo na Bahia, estado onde o Master expandiu a carteira de crédito consignado por meio do programa Credcesta, já revelados pelo Correio da Manhã.

As apurações apontam suspeitas de que contratos consignados vinculados a servidores públicos, especialmente professores, teriam sido utilizados para inflar artificialmente a carteira de ativos do banco. Esse braço baiano tornou-se um dos principais eixos das investigações e acabou alcançando também o então líder do Governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que nega qualquer participação em irregularidades. Dias depois, em meio ao avanço da crise política, Wagner deixou a liderança do governo na Casa.

Para o advogado e professor de Direito Constitucional Daniel Lamounier, a iniciativa da comissão era esperada diante da dimensão que o caso alcançou. "A ausência de convite de personalidades envolvidas no maior escândalo bancário/político do Brasil causaria estranheza", afirma. Segundo ele, o Senado cumpre uma função institucional ao acompanhar fatos com potencial de impacto econômico, embora o momento eleitoral também possa estimular disputas por protagonismo político.

Pressão

Embora a CAE não tenha os mesmos poderes de investigação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), especialistas avaliam que as audiências públicas podem ampliar significativamente o desgaste dos envolvidos.

Daniel Lamounier observa que as oitivas tendem a influenciar a disputa pela narrativa pública. "Impactos políticos esperados envolvem o controle da pauta em noticiários e em redes sociais. Condução de questionamentos e produção de relatos a direcionar a opinião pública em uma determinada direção e retirar o protagonismo do STF/PF", avalia.

Na avaliação do professor de Políticas Públicas do Ibmec Brasília Jackson De Toni, o Senado passou a ocupar um espaço relevante diante da ausência de uma CPI específica sobre o tema. Segundo ele, as audiências públicas transformaram a comissão em um novo palco da disputa política em torno do caso, impulsionada pelas informações produzidas pelas investigações da Polícia Federal.

Consignados

A expectativa é que Augusto Lima esclareça aos senadores como funcionava a estrutura de governança do Banco Master, quais eram os processos internos de decisão e de que forma ocorreram as negociações institucionais envolvendo o BRB e a atuação do grupo na Bahia.

A audiência deve ajudar a reconstruir a cronologia de um caso que começou no mercado de crédito consignado, avançou para investigações da Polícia Federal e agora chega ao Congresso Nacional.

Para Lamounier, esse acompanhamento também reforça uma atribuição do Legislativo. "A investigação de irregularidades não é exclusiva de CPIs, mas o resultado sempre dependerá da existência do espírito republicano a superar o clientelismo e renegar o uso de atribuições públicas para fins particulares", afirma.