A esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, acertou com o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, sua saída do PL Mulher. Michelle divulgou uma nota no início da noite desta terça-feira (30), na qual informa que sai do comando do segmento feminino do partido para se dedicar, segundo ela, “integralmente”, aos cuidados de seu marido, que se encontra em prisão domiciliar.
A saída de Michelle ocorreu após uma reunião com Valdemar nesta terça-feira (30). O presidente do PL estava nos Estados Unidos, dentro do estádio Miami Giants, pronto para assistir ao jogo entre o Brasil e a Escócia, segundo da Copa do Mundo, quando soube dos dois vídeos nos quais Michelle atacava o candidato do partido à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (RJ). Voltou para o Brasil no dia seguinte para tentar apagar o incêndio provocado.
O encontro ocorreu poucos dias depois de Michelle divulgar os vídeos, nos quais criticou articulações políticas no Ceará e afirmou que vinha sendo desrespeitada dentro do próprio grupo. A reunião aconteceu na sede nacional do partido e terminou sem declarações à imprensa.
Nesta quarta-feira (1º), Flávio receberá lideranças do PL Mulher em um encontro articulado por ele próprio, do qual Michelle estava convidada a participar. Com a comunicação de que deixa o PL Mulher, é improvável que Michelle esteja presente.
Candidatura
Nos bastidores, a crise permanece longe de um desfecho definitivo, mesmo com a saída de Michelle. Interlocutores do partido afirmam que ela chegou a colocar sua pré-candidatura ao Senado pelo Distrito Federal "à disposição", alegando sentir-se desgastada e sem espaço nas decisões internas. Valdemar tenta demovê-la da desistência da candidatura. Michelle lidera as pesquisas de intenção de voto para o Senado.
Para o cientista político e professor de Direito da Estácio Lucas Zandona, a atuação de Valdemar revela a dimensão política que o episódio ganhou.
"Flávio Bolsonaro não pode perder um apoio importante, ainda que seja da sua madrasta. É exatamente por isso que o Valdemar Costa Neto, como presidente do partido, está entrando em campo para tentar fazer uma mediação, na expectativa de que essa rusga entre os dois não possa refletir na campanha eleitoral."
Mais do que um desentendimento familiar, Zandona avalia que o conflito expõe uma disputa por espaço dentro do próprio bolsonarismo. "Michelle deixou claro que não quer ter um papel secundário nas eleições de outubro", afirma.
Aliados ampliam o desgaste
Enquanto o PL tenta apagar o incêndio, novas declarações ampliaram o desgaste. O comentarista Paulo Figueiredo, aliado do bolsonarismo e próximo de Flávio Bolsonaro, saiu em defesa do senador e afirmou que "as mulheres votam muito mal", além de fazer ataques direcionados a Michelle e à senadora Damares Alves (Republicanos-DF). As falas provocaram reação imediata dentro e fora do grupo político.
A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) acionou a Procuradoria-Geral da República (PGR) para que sejam apuradas possíveis práticas de violência política de gênero, injúria e difamação. Já Damares respondeu diretamente a Figueiredo pelas redes sociais, ressaltando sua trajetória política e convidando o comentarista a conhecer sua atuação parlamentar em Brasília. Na publicação, afirmou que enfrenta "os pedófilos, os corruptos e o crime organizado de frente sem medo" e defendeu que o debate político seja feito sem ataques à honra das pessoas.
Para Lucas Zandona, as declarações de Figueiredo caminham na direção oposta ao esforço de pacificação conduzido pelo partido. "É um desserviço que o Paulo Figueiredo faz, uma vez que o momento deveria ser de conciliação, não de jogar combustível no incêndio que já está aí."
Segundo o cientista político, Michelle ocupa um espaço estratégico para a direita justamente por dialogar com dois segmentos considerados fundamentais para qualquer candidatura competitiva: o eleitorado feminino e o público evangélico. "Michelle Bolsonaro tem uma penetração muito boa no público feminino e no público evangélico. Ou seja, são dois públicos que o Flávio Bolsonaro precisa angariar apoio."
Na avaliação do especialista, a disputa também revela um embate maior dentro do bolsonarismo. "Essa disputa dentro do clã Bolsonaro é muito mais profunda. É uma disputa pelo espólio político do Jair Bolsonaro", afirma. Para ele, enquanto o conflito permanecer exposto, o maior beneficiado tende a ser o campo adversário.
"Esse cenário de fogo amigo dentro do clã Bolsonaro favorece muito mais a candidatura da oposição do que propriamente uma disputa por um espólio político que os próprios herdeiros ainda não conseguiram administrar de forma privada."
Enquanto a crise se expande dentro do partido, o líder bolsonarista, o ex-presidente Jair Bolsonaro, aguarda pela prorrogação da prisão domiciliar que acabou o prazo na semana passada. Nesta terça-feira, o advogado Paulo Cunha Bueno reuniu-se com o ministro Alexandre de Moraes para defender a prorrogação da domiciliar. Após o encontro, afirmou que apresentou argumentos sobre a condição médica do ex-presidente e sobre o episódio envolvendo a arma apreendida, sustentando que permanecem presentes os requisitos humanitários que justificam a manutenção da medida. A decisão cabe ao ministro Alexandre de Moraes, que ainda não se manifestou a respeito.
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