O senador Jaques Wagner (PT-BA) iniciou a semana como uma das pessoas mais poderosas do governo e próximas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Congresso. Mas terminou tendo de responder a suspeitas da Polícia Federal (PF), explicar a apreensão de milhares de dólares, justificar a relação com personagens centrais do caso Banco Master e enfrentar uma pressão que já ultrapassa os limites da investigação.
Embora o presidente Lula tenha decidido mantê-lo na liderança do governo no Senado, cresce nos bastidores a avaliação de que o custo político dessa permanência pode aumentar à medida em que novos detalhes da apuração vierem à tona.
A operação deflagrada pela PF colocou o líder do governo no centro de uma investigação que, segundo os investigadores, envolve um complexo esquema de favorecimentos, operações financeiras e relações políticas construídas em torno do Banco Master e de empresários ligados ao grupo.
Desconforto
Mesmo sem qualquer acusação formal ou denúncia apresentada contra o senador até o momento, o fato de ter sido um dos alvos da nona fase da Operação Compliance Zero passou a gerar desconforto dentro do Palácio do Planalto.
O receio de aliados é que o avanço das investigações acabe transferindo para o governo um desgaste que, até então, estava concentrado nos envolvidos diretamente nas apurações.
Nos bastidores, a avaliação é que Lula não pretende afastar Wagner da liderança. Mas também existe a percepção de que o presidente não ficou completamente satisfeito com as explicações apresentadas pelo aliado após a operação. A expectativa é de que os dois conversem pessoalmente nos próximos dias.
A decisão que autorizou a operação trouxe uma série de elementos que ajudam a explicar a preocupação do governo. A Polícia Federal afirma ter identificado indícios de que Jaques Wagner teria recebido vantagens indevidas relacionadas ao grupo investigado. Entre os pontos destacados está um apartamento no empreendimento Poème Horto, em Salvador, avaliado em aproximadamente R$ 2,45 milhões.
Núcleo familiar
Os investigadores também apontam pagamentos que teriam beneficiado pessoas ligadas ao núcleo familiar do senador. Um dos focos da apuração envolve transferências para empresas associadas ao enteado de Wagner, Eduardo Sodré, além de mensagens que indicariam proximidade entre integrantes do grupo investigado e pessoas próximas ao parlamentar.
Outro aspecto que chamou a atenção dos investigadores foi a apreensão de aproximadamente US$ 55 mil e 33 mil euros em endereços ligados ao senador. Wagner sustenta que os valores têm origem legal. Segundo ele, parte do dinheiro corresponde a diárias recebidas durante viagens internacionais realizadas ao longo dos últimos anos e outra parte foi adquirida regularmente para deslocamentos ao exterior.
O senador também nega qualquer recebimento de recursos do Banco Master, de Daniel Vorcaro ou de Augusto Ferreira Lima, apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores do esquema investigado.
Potencial
Mas a preocupação política não decorre apenas dos fatos já conhecidos. Ela está ligada ao potencial de novas revelações. Para o jurista e analista político Melillo do Nascimento, a questão central deixou de ser apenas jurídica. "A sustentabilidade política de Jaques Wagner depende menos da existência da investigação em si e mais da evolução dos fatos produzidos por ela", considera.
Segundo ele, Lula dificilmente abandonará um aliado histórico apenas porque houve investigação contra ele. "O governo tende a se apoiar exatamente nessa distinção. Lula dificilmente abandonará um aliado histórico apenas porque surgiram diligências investigativas. Se fizesse isso, estaria admitindo previamente um problema que, do ponto de vista jurídico, ainda está em apuração."
Lula na crise
Se a operação já representava um problema para o governo, um episódio ocorrido horas depois acabou ampliando o debate político. Em entrevista à Band Bahia, Jaques Wagner revelou ter recebido uma ligação de Lula após a ação da Polícia Federal. O senador afirmou que o presidente telefonou para manifestar solidariedade e reafirmar confiança. "A liderança do governo fica a cargo do presidente Lula, com quem eu falei hoje", declarou.
Em outro momento da entrevista, Wagner afirmou que Lula lhe disse para permanecer firme e que mantinha "absoluta confiança" em sua conduta.
A fala produziu forte repercussão em Brasília. Até então, o apoio do presidente era tratado como uma articulação de bastidor. Ao tornar pública a conversa, Wagner acabou associando diretamente Lula à sua defesa política em meio ao avanço das investigações.
A avaliação de interlocutores do governo é que a declaração trouxe um componente adicional para a crise: a partir de agora, cada novo capítulo da investigação poderá gerar questionamentos não apenas sobre Wagner, mas também sobre a decisão do presidente de mantê-lo na liderança.
O próprio senador demonstrou não acreditar em qualquer mudança de posição por parte do Planalto. "Eu continuo na liderança até que o presidente Lula peça para eu me retirar. Não acho que ele vai fazer isso", afirmou.
Matemática política
Apesar do desgaste, Lula possui razões concretas para resistir a uma substituição. Jaques Wagner é considerado um dos principais articuladores do governo no Senado. Com trânsito entre partidos de diferentes espectros políticos, é frequentemente encarregado de negociações consideradas sensíveis para o Planalto.
Segundo Melillo, esse fator pesa diretamente no cálculo que está sendo feito dentro do governo. "O primeiro elemento é a governabilidade. Lula governa sem maioria automática e depende de articulação permanente no Congresso. Nesse contexto, Jaques Wagner não é apenas um senador; ele é um operador político experiente."
Além da capacidade de articulação, existe a relação pessoal construída ao longo de décadas. "O segundo fator é a relação de confiança. Wagner integra o núcleo histórico do lulismo. Lula sempre demonstrou enorme resistência a abandonar aliados antigos diante de crises políticas."
Mas nem mesmo esse histórico garante estabilidade permanente. O especialista avalia que a permanência do senador depende diretamente do surgimento — ou não — de novos fatos. "Enquanto Jaques Wagner entregar governabilidade e as investigações não produzirem fatos politicamente devastadores, a tendência é pela permanência."
Por isso, a discussão que ocorre atualmente dentro do Palácio do Planalto não está concentrada apenas nas conclusões da Polícia Federal ou nos próximos passos da investigação. O debate envolve uma questão mais pragmática: qual é o custo político de manter Jaques Wagner onde está. E, como resume Melillo, essa conta está sendo refeita diariamente. "A verdadeira discussão hoje não é jurídica. É matemática política. E essa conta está sendo refeita todos os dias dentro do Palácio do Planalto."
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