Correio da Manhã
Política

BTG/Nexus: aprovação de Lula supera reprovação

Levantamento indica recuperação gradual do petista em meio ao desgaste do principal nome do bolsonarismo para 2026

BTG/Nexus: aprovação de Lula supera reprovação
Para cientista político, pesquisa reforça tendência desfavorável a Flávio Crédito: Lula Marques/Agência Brasil.

Parece que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu, enfim, respirar em relação ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). É o que aponta a quarta rodada da pesquisa BTG/Nexus, divulgada nesta segunda-feira (15), que mostra o petista liderando tanto os cenários de primeiro turno quanto as simulações de segundo turno para a eleição presidencial de outubro. O dado mais relevante, porém, está fora da disputa eleitoral: pela primeira vez em 2026, a aprovação do governo aparece numericamente acima da reprovação.

No principal cenário estimulado de primeiro turno, Lula tem 42% das intenções de voto, contra 33% de Flávio Bolsonaro. Em maio, a distância era de cinco pontos percentuais. Agora, chegou a nove. A movimentação ocorre após meses em que diferentes levantamentos indicavam uma disputa mais apertada entre os dois principais nomes da corrida presidencial.

A pesquisa também mostra estabilidade de Lula no voto espontâneo. O presidente aparece com 36%, enquanto Flávio registra 27%. Em março, a diferença era de seis pontos; agora, é de nove.

Governo

O avanço eleitoral vem acompanhado de uma melhora na percepção sobre o governo. Segundo o levantamento, 48% aprovam a gestão Lula, enquanto 47% desaprovam. Embora os números estejam dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, a inversão é simbólica porque interrompe uma sequência de meses em que a reprovação aparecia numericamente à frente. Em março, por exemplo, a aprovação era de 45% e a desaprovação de 51%.

A avaliação do governo também melhorou. Os índices de ótimo e bom chegaram a 38%, ante 35% em março. Já o percentual de ruim e péssimo caiu de 44% para 41%.

Para Arthur Wittenberg, professor de Políticas Públicas do Ibmec Brasília, o principal sinal não está no empate técnico entre aprovação e reprovação, mas na trajetória observada desde o início do ano.

"O dado sólido não é o cruzamento de 48% a 47%, é ultrapassagem dentro da margem, mas a trajetória: a reprovação recua de forma consistente desde março. É melhora de piso, não de teto, já que na avaliação graduada o ruim/péssimo ainda lidera."

Segundo ele, a recuperação está mais associada à percepção econômica e ao alcance de políticas públicas do que a um fato isolado.

Enquanto Lula melhora seus indicadores, Flávio enfrenta um movimento oposto. O senador tem buscado ampliar o diálogo para além do eleitorado tradicional da direita. Nesta segunda-feira (15), durante o Fórum Rumos do Brasil, afirmou que o Bolsa Família deve ser preservado mesmo em um eventual governo seu e defendeu que "ninguém tem o direito de tocar nesse programa". Entre os beneficiários do programa, Lula concentra 62% das intenções de voto, contra 20% de Flávio Bolsonaro.

Flavio também voltou a defender o fim da reeleição e a suspensão da reforma tributária como prioridades de governo.

Apesar disso, os números indicam dificuldades para expandir sua base. Pesquisas anteriores já apontavam perda de apoio entre jovens, eleitores de maior renda e segmentos do centro-direita.

Para Wittenberg, a explicação vai além da dinâmica eleitoral. "A queda de Flávio é antiga, sustentada e atravessa toda a série de pesquisas e antecede os episódios mais recentes, então não se reduz a um único fato do noticiário."

Ainda assim, ele avalia que o ambiente político tem peso. O levantamento mostra, por exemplo, que 42% dos entrevistados atribuem à família Bolsonaro a maior responsabilidade pelo tarifaço anunciado pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros, enquanto 39% responsabilizam Lula.

O cenário coincide com o avanço das investigações relacionadas ao chamado caso Master, que atingiram o entorno político do bolsonarismo. Entre os episódios mais recentes estão as apurações sobre recursos destinados ao filme Dark Horse e um fundo sediado no Texas que passou a ser investigado para verificar a destinação dos valores.

Na avaliação do professor, o desgaste tende a atingir o pré-candidato mesmo quando ele não aparece formalmente entre os investigados. "É contaminação de marca: Flávio deriva quase todo o capital do sobrenome, e a mesma dependência que lhe dá um piso fiel impõe o teto."

A quatro meses da eleição, Arthur Wittenberg faz uma ressalva. Para ele, ainda é cedo para falar em cenário consolidado. "O que está consolidada é a tendência de movimento, não um cenário para 2026: Lula em recuperação gradual, Flávio em desgaste sustentado. O valor está na trajetória, não na fotografia de um número."