As conversas entre o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e o banqueiro Daniel Vorcaro, analisadas pela Polícia Federal (PF), revelam “laços de amizade” entre os dois. Em relatório enviado ao ministro André Mendonça, relator do Caso Master no STF, a PF aponta tratamentos como “amigo” e “irmão”, elogios pessoais e encontros privados, incluindo jantares em Nova York.
Em um dos diálogos citados pela PF, Cláudio Castro envia um vídeo para Vorcaro no qual aparece cantando uma música religiosa. “Canta muito. Arrebentou”, diz o banqueiro. “Você é meu amigo. Não conta hahahaha”, responde o ex-governador.
Em outra conversa, Castro responde a um convite de Vorcaro para um jantar no restaurante Nusr-Et Steakhouse, em Nova York, conhecido por servir cortes de carne cobertos com folhas de ouro 24 quilates.
“Qualquer coisa me chame aqui”, diz Vorcaro, no diálogo. “Você não existe. Qual o nome do restaurante mesmo?”, pergunta Castro. “Nusr-Et ”, responde o banqueiro.
Segundo a PF, era o segundo encontro marcado pelos dois no restaurante e ambos haviam sido custeados pelo empresário. O primeiro havia ocorrido no ano anterior e seguido de uma notificação no celular de Vorcaro dando conta de uma compra aprovada no valor de 13,3 mil dólares, equivalentes a R$ 66 mil na época.
Minutos depois da notificação, Castro escreveu a Vorcaro: “Amigo, foi uma experiência incrível. Muito obrigado. Bom dia, amigo”. “Bom dia, meu caro. Que bom que deu certo”, respondeu o banqueiro.
Outro convite de Vorcaro a Castro aconteceu em março de 2025, no carnaval. O banqueiro chamou o então governador para uma feijoada em sua casa. “Fala, meu irmão. Tudo bem? Vamos nos ver essa semana algum dia. Amanhã vou fazer uma feijoada, se puder ir com a esposa”, disse Vorcaro.
Investigação
A investigação trata dos repasses que somam R$ 2 bilhões feitos pelo RioPrevidência em letras financeiras e fundos de investimentos geridos pelo Banco Master. De acordo com a PF, Castro teria atuado para que os valores fossem investidos no banco de Vorcaro, alterando a direção da autarquia para que os investimentos fossem feitos “em desconformidade com a política de investimentos, com a legislação de regência e com os deveres fiduciários mínimos”.
Na sexta-feira (29), após a revelação dos contatos mantidos com Vorcaro, Cláudio Castro anunciou sua desistência da disputa pelo Senado nas eleições deste ano para “cuidar de sua defesa”.
Repasses bilionários
Na decisão que autorizou o cumprimento de mandados de busca e apreensão contra Castro na terça-feira (26), o ministro André Mendonça destacou a interferência pessoal do ex-governador para que os investimentos acontecessem.
“A tese investigativa sustenta que a motivação central dessas decisões não residiria em critérios técnicos regulares de investimento, mas em relação pessoal e indevida entre o controlador do Banco Master e autoridades com poder de mando sobre o RPPS. Dentro dessa linha investigativa, a PF aponta conversas indicando que determinados aportes dependeriam de ‘alinhamento político’ com o ex-governador do Estado”, disse Mendonça.
“A autoridade policial logrou êxito na reconstrução cronológica dos aportes realizados pelo RioPrevidência no Banco Master, primeiro por meio de Letras Financeiras e depois por fundos constituídos para contornar restrições regulatórias, indicando que as aplicações teriam sido precedidas ou acompanhadas de aproximação política, encontros pessoais e rearranjos administrativos no âmbito da autarquia previdenciária estadual”, afirmou o ministro.
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