Opinião

Assista aos debates. São muito divertidos.

Assista aos debates. São muito divertidos.

Há uma mentira que, como toda mentira, de tão repetida, até parece verdade : a de que debates eleitorais são os momentos apropriados para o eleitor conhecer as propostas dos candidatos. Pois definitivamente não são. O que esses eventos menos permitem é a apresentação e confrontação de propostas a fim de que o eleitor-ouvinte-telespectador tire conclusões e faça suas escolhas.

Debates são confrontações de performances. Performances. Lá uma ou outra proposta se sobressai do debate e permanece na memória do eleitor-ouvinte-telespectador. O forte mesmo é o desempenho de cada candidato, sua capacidade de bater e de se defender dos golpes do adversário: sua mise-em-scène. Mas atenção: debates servem, também, para conhecer como os candidatos reagem em situações de estresse, se são capazes de manter o equilíbrio emocional e intelectual. Ou seja, se ganharem a eleição, será que serão capazes de superar situações de estresse e tomar decisões seguras em favor do eleitorado?

Até porque debate é espetáculo midiático. Antes do advento das redes sociais, os participantes de um debate sabiam que ali poderiam até decidir uma eleição, por isso se preparavam para proferir frases de efeito que permanecessem na memória do eleitor ao final do confronto. Hoje, os debates servem mais é para a produção de "cortes", trechos de falas de alto efeito persuasivo que são amplificados e multiplicados pelas redes sociais, para onde efetivamente foram pensados e produzidos. Daí porque a pergunta que sempre é feita ao final desses embates é: quem se saiu melhor? E não: quem apresentou as melhores propostas? Dentro desse "quem se saiu melhor?" estão desde o figurino, o gestual, as expressões faciais, a articulação do pensamento e as frases de efeito que podem "grudar" na memória do eleitor.

Nunca, ao final de um debate político, ouve-se ou lê-se algo como "a proposta para a criação de empregos do candidato A é bem melhor do que a do candidato B". As avaliações são sempre muito genéricas, do tipo: "quem se saiu melhor?", ou: "quem estava mais preparado?", "quem estava mais à vontade, mais seguro, mais tranquilo?" e até a velha "quem ganhou o debate", seja lá o que isso signifique. Mas atenção: num debate, a disputa é para... não perder, pois quem não perde um debate já começou a ganhar! A menos que um dos debatedores cometa um erro devastador. Um exemplo: em 1998, Cristovam Buarque e Joaquim Roriz disputavam o governo do DF. Cristovam era o favorito nas pesquisas. Até Cristovam, num debate lá pelo final da campanha, criticar Roriz por estar cometendo erros de português nos seus tempos de fala. O eleitorado menos preparado automaticamente solidarizou-se e mesmo quem se inclinava pró-Cristóvam bandeou-se para Roriz. E, segundo alguns analistas, essa teria sido a razão para Cristovam perder uma eleição que parecia ganha.

Por isso hoje existem especialistas na preparação de candidatos para debates, que, além de ensinar a evitar escorregar nas cascas de banana dos adversários, cuidam dos mínimos detalhes, da roupa ao corte de cabelo, da entonação ao movimento das mãos até a escolha das palavras mais impactantes, assim como as estratégias de defesa a partir da expectativa do tipo de ataque do adversário. E de cuidados para evitar escorregões fatais como o cometido por Cristovam Buarque.

No último debate Lula x Flávio, na Band, a movimentação do candidato do PL fazendo gestos de desaprovação ou ironia atrás de Lula foi muito bem pensado para produzir o efeito de tirar a atenção do candidato petista. E conseguiu. Só depois soube-se que o "coach" de Flávio, Pablo Marçal, lá na plateia, orientava-o a fazer tal ou qual expressão gestual ou facial. A falta de pulso dos mediadores do debate também contribuiu para a degradação do espetáculo. Só lá pelo final Flávio recebeu uma admoestação pelo papel de papagaio de pirata durante o confronto. Desavisado, Lula não reagiu à falta de educação do oponente, que tirou a atenção dos que queriam acompanhar o sentido de suas falas.

Por tudo isso, fica uma sugestão: abra os jornais, ouça os comentaristas, assista aos noticiários do rádio e da tv, acompanhe o horário eleitoral e, sobretudo, procure saber pra que lado estão se inclinando as intenções de votos de quem você considera dignos de confiança. Não que você vá segui-los cegamente, mas com certeza as posições deles lhe darão uma indicação digna de ser avaliada. Só então tire suas conclusões. E nunca se esqueça: o voto é secreto. Pode dizer que vai votar em A e na urna indevassável votar em B. Não é pecado, pois para isso foi criado o voto secreto. Ah, sim: assista aos debates. Às vezes até ajudam na decisão do voto. E são muito divertidos!