Opinião

Brasil, segurança pública e organizações criminosas

Brasil, segurança pública e organizações criminosas

O presidente dos Estados Unidos Donald Trump declarou que o Brasil falhou em enfrentar as duas principais organizações criminosas nacionais: PCC e CV. Não é novidade que ambas figuram entre as principais rotas do tráfico atualmente. Unilateralmente o Departamento de Estado dos EUA rotulou as organizações brasileiras como organizações terroristas em maio de 2026, com efeitos práticos a partir de agosto do mesmo ano.

A preocupação é com o crescente envolvimento do tráfico de drogas brasileiras como polo de distribuição global de cocaína. Declarou Donald Trump: "Essas organizações terroristas brasileiras representam uma ameaça crescente à paz e à segurança em todo o mundo, e o governo brasileiro precisa urgentemente adotar medidas para confrontá-las e derrotá-las antes que se espalhem e cresçam".

A influência das facções na economia brasileira já é uma realidade. O Comando Vermelho está presente em 22 estados brasileiros, enquanto a rede mundialmente famosa de fast food Mac Donald´s está presente em 23 estados e o Primeiro Comando da Capital atua em 25 estados, portanto, mais influente e presente do que uma das mais conhecidas redes de lanches do planeta.

Em São Paulo, o Primeiro Comando da Capital, segundo a Operação Vectura Corrupta está vinculado a 12 das 22 empresas de ônibus que operam o transporte da população local da cidade de São Paulo, o que representa 38% de toda a rede. Somente em agosto de 2026, as 12 empresas foram responsáveis por transportar 41% de todos que usaram ônibus na cidade de São Paulo.

No Rio de Janeiro, polo central das operações do Comando Vermelho, a violência cresce a ponto de o Estado ter de alterar 71 zonas eleitorais, em 20 municípios, por domínio de facções (dessas, 44 estavam em áreas dominadas pelo Comando Vermelho).

O crescimento das facções e a escassez de Segurança Pública são plenamente visíveis pela população. A pesquisa Quaest/Pax mostra que o principal problema do Brasil é a violência (28%), mais do que a corrupção (22%) e a economia (19%). Para 73% a violência aumentou por maior ocorrência de crimes e maior violência deles. A mesma pesquisa indica que 80% almejam ações mais duras contra facções.

Donald Trump está errado, o Brasil não tem de agir antes que as facções cresçam, pois, elas são o principal problema da Segurança Pública brasileira. O que precisa ser feito são incrementos em tecnologia, cooperação técnica, eliminação do déficit nas polícias e maiores investimentos do Governo Federal, além de uma atuação conjunta entre União, Estados e Municípios.

Investigar, prevenir e atuar antes que o crime ocorra em um trabalho conjunto de inteligência. A solução não virá de um único fator, porém, tampouco, será solução a criação do Ministério da Segurança Pública ou da aprovação da PEC da Segurança, como divulga o presidente da República. É preciso mais.

Não se engane que o caminho é a construção de mais presídios ou de maior rigor penal. O Brasil tinha 100 mil presos em 1990, hoje tem mais de 900 mil. As facções nasceram nos presídios, cresceram e se desenvolveram dentro do ambiente prisional, logo, prender mais igualmente não é a solução.

E qual o caminho? Criar e desenvolver planos de investigações que consigam, efetivamente, rastrear e conter o lucro das facções a fim de causar abalo em seus ganhos. Para tanto, o Estado precisa se fortalecer com melhorias tecnológicas urgentes e, finalmente, deixar de ser um conflito em que o Estado opera em modo analógico e o crime em modo digital.

A ameaça de atuação dos Estados Unidos da América no Brasil pode ser substituída por cooperação e parceria, desde que o Brasil deixe de propagar que irá lidar com as facções, que as irá combater, que o enfrentamento será ostensivo e ainda mais forte, quando, na prática, o que cresce de verdade, é o poderio e os investimentos em infraestrutura, logística, distribuição e armamento das próprias facções.

O Governo Federal precisa parar de prometer, de alardear e aplicar medidas efetivas contra o crime organizado no País. As facções se infiltram diariamente na realidade das pessoas, nas eleições terão influência ativa em candidaturas e seus lucros são anualmente progressivos.

O Brasil precisa se estruturar com um serviço de inteligência mais ágil com cooperação técnica entre os órgãos estaduais e nacionais, Receita Federal, COAF, Banco Central em atuação conjunta com as polícias para rastrear a rota do dinheiro e, por conseguinte, identificar operações ilícitas e o erário do crime.

A partir daí organizar operações policiais para desaparelhar as ações das facções e atingir o lucro, esse é o caminho para reduzir a influência das facções. O Brasil tem apostado no rigor penal com encarceramento em massa e menos em inteligência e organização, que tal inverter a lógica e se estruturar?