Caminhando pelo Santo Cristo, na zona portuária do Rio, me deparei com um grupo de operários na hora do almoço. Deitados no chão, disputando um pedaço de sombra, ou sentados em bancos de concreto. Estavam construindo um empreendimento com nome em inglês num país onde se fala português.
Conversei com dois deles. João e Romário, ambos na casa dos 30 anos. Moram na Baixada Fluminense. Percorrem mais de 40 quilômetros por dia, pegam entre duas e três conduções. Conversaram comigo entre uma garfada e outra.
"Eu não acredito em político nenhum", disse João. "Político não gosta de pobre", sintetizou Romário.
Pensei nas salas de descompressão que existem em grandes empresas — espaços criados para que trabalhadores possam descansar, respirar, se recuperar entre uma tarefa e outra. Já trabalhei em lugares assim. João e Romário talvez já tenham construído uma. Mas jamais usufruíram de nenhuma.
Isso explica algo que o debate sobre saúde mental no Brasil ainda não aprendeu: não basta analisar dados. É preciso enxergar gente. O Brasil é grande demais, e as pessoas vivem de maneira completamente diferente em cada canto do país. Uma política pensada para quem tem plano de saúde, home office e sala de descompressão não chega até quem acorda antes do sol para pegar três conduções.
Fala-se muito sobre saúde mental. Nos consultórios, nas redes sociais, nos discursos de campanha. Mas há uma conversa que ainda não aconteceu de verdade: a que coloca saúde mental e pobreza no mesmo parágrafo, não como causas separadas, mas como partes do mesmo ciclo.
O que todo mundo já sabe: pobreza adoece. Quem vive em condição de vulnerabilidade socioeconômica tem mais ansiedade, mais depressão, mais transtornos relacionados ao estresse. Isso está documentado, estudado, repetido. Não é novidade.
Mas o caminho inverso também existe, e é menos discutido. O adoecimento mental produz pobreza. Uma pessoa com depressão severa perde emprego, não consegue estudar, não consegue cuidar dos filhos, não consegue pagar a conta. O transtorno de ansiedade paralisa decisões financeiras. O uso problemático de álcool — que é transtorno mental, não fraqueza moral — destrói vínculos e renda.
Pobreza adoece. Adoecimento empobrece. Os dois se alimentam. E o Estado, quando age, quase sempre age num ponto só.
A Organização Mundial da Saúde estima que depressão e ansiedade, sozinhas, consomem 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo — a um custo de US$ 1 trilhão em perda de produtividade. O problema não é invisível. É ignorado.
João e Romário são a principal renda de suas famílias. Se um dia adoecerem, vão precisar provar esse adoecimento para o Estado. A dor precisa virar laudo. Depois, passa pela perícia. E a espera são semanas intermináveis, que podem se tornar meses. Enquanto isso, como faz? Pede emprestado ao vizinho? O aluguel não espera. O proprietário não quer saber dos problemas do inquilino. Os juros seguem correndo. E comendo ainda mais o dinheiro de quem já não tem.
O Estado tem dados, tem relatórios, tem políticas. O que ainda não entendeu é que saúde mental e pobreza são partes do mesmo problema. Quem mora na Baixada Fluminense não tem o mesmo acesso à saúde, ao trabalho e ao amparo de quem mora na capital.
O trabalho, dizem, enobrece. Mas, quando o trabalhador adoece, a dívida cresce. O problema de saúde vira um problema financeiro — e um passa a alimentar o outro. O ciclo não se rompe sozinho.
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