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Cinema

Opinião | Sam Neill, herói dos anos 90, deixa legado importante para futuras gerações

Imortalizado como Dr. Alan Grant na franquia 'Jurassic Park’, Sam Neill faleceu aos 78 anos

Opinião | Sam Neill, herói dos anos 90, deixa legado importante para futuras gerações
Sam Neill ficou eternizado nos cinemas como o Doutor Alan Grant Crédito: Divulgação

Poucas obras na história humanidade foram tão capazes de definir sua época de lançamento quanto Jurassic Park. Lançada em 1993, a adaptação cinematográfica do romance homônimo de Michael Crichton foi um fenômeno de crítica e bilheteria mundo afora.

Dirigida por Steve Spielberg, essa aventura fantástica revolucionou o cinema mundial com a mistura de animatrônicos assustadoramente realistas junto ao uso magistral da computação gráfica, o tão falado CGI, para trazer à vida os dinossauros mais realistas que o mundo já viu. Esse primor técnico contou com uma história sólida de aventura e ficção científica, e com um elenco fabuloso para despertar o fascínio e a imaginação de milhões de crianças pelo mundo.

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Porém, a obra é tão magnífica que transcendeu a molecada e segue relevante até os dias de hoje, sendo muito impactante também para os adultos que estão por aí ainda tentando compreender o que é crescer. E parte fundamental dessa capacidade de transcender gerações se dá pelo trabalho irretocável de Sam Neill como o Doutor Alan Grant.

Não é exagero dizer que Jurassic Park, apesar de conquistar pelos dinossauros, é uma obra que fala essencialmente sobre fascínio e pela busca adulta por essa sensação geralmente associada à infância. A história começa com o bilionário John Hammond (Sir Richard Attenborough), que fez fortuna no ramo da bioengenharia. Dono de tudo que o dinheiro é capaz de comprar, Hammond investe em um parque temático que abriga dinossauros nascidos de experimentos de clonagem e engenharia genética para tentar cumprir seu desejo de criar essa sensação do 'fascínio' de forma controlada.

Macaque in the trees
Para Hammond, criar vida é apenas mais uma brincadeira possibilitada por sua fortuna | Foto: Divulgação

Ele faz uma analogia sobre um circo de pulgas eletrônico, mas logo cai na real de que o tal controle nunca existiu. Tudo não passou de uma grande e arrogante ilusão. Ao pôr a vida dos netos em risco, ele entende que há forças que nem mesmo um bilhão de dólares são capazes de controlar, como a vida em si.

Retrato das inovações científicas da época, que viam a clonagem genética como o próximo passo da evolução humana, Jurassic Park acabou se perpetuando mesmo pelo lado emocional. Claro que os dinossauros ainda são impressionantes, mas a mensagem por trás de seu protagonista segue tão forte quanto o rugido da T-Rex que barbariza os visitantes do parque.

A trama acompanha o amargo Dr. Grant, um paleontólogo consumido pelo trabalho que só topa embarcar nessa aventura depois de receber garantias financeiras de que suas escavações seriam mantidas por mais três anos. No entanto, a partir do momento em que desembarca na Ilha Nublar, a amargura de Grant dá espaço a um sentimento puro que é criado de forma orgânica por das mais belas e singelas atuações do cinema: o fascínio.

Neill interpreta o paleontólogo como uma criança que descobre o prazer de estar vivo. Apesar de estar ciente de todas as questões éticas que envolvem trazer dinossauros de volta à vida, ele não consegue esconder o fascínio de estar diante das criaturas que deram sentido a sua existência. É algo tão puro e genuíno que cria uma identificação imediata do público. Afinal, o que é ser adulto nos dias de hoje se não uma grande tentativa de ser funcional, mas sem deixar morrer sua criança interior? Naquele parque, diante de feras lendárias, ele se permite ser criança novamente pela primeira vez em décadas.

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A atuação de Sam Neill traz a essência infantil na vida adulta de forma orgânica | Foto: Divulgação

Paralelamente a isso, o paleontólogo trabalha duas questões pessoais que também são comuns a essa geração atual de adultos. Ele passa boa parte do filme negando investidas de sua namorada, a paleobotânica Dra. Ellie Sattler (Laura Dern), sobre ter filhos. Ele recusa inicialmente, já que não têm garantias financeiras e nem afinidade com crianças - visto que foi engolido pelas responsabilidades da vida adulta -, mas vai compreendendo na prática, conforme embarca em uma jornada de sobrevivência com Lex e Tim, os netos de Hammond, que talvez a paternidade não seja esse bicho de sete cabeças.

Junto a essa questão, ele encara na prática a possibilidade de perder sua função social. Afinal, seu trabalho é escavar para encontrar fósseis e tentar compreender como eram aqueles animais magníficos de milhões de anos atrás. Então, qual seria exatamente a função de um paleontólogo em mundo no qual a tecnologia foi capaz de viabilizar a “desextinção”?

No mundo atual, diversos setores da sociedade estão passando por isso agora. Quantas profissões não estão ameaçadas pelo avanço extraordinário das Inteligências Artificiais?

E o mais genial dos trabalhos de Spielberg e Neill é que esses dois arcos de desenvolvimento de Alan Grant convergem para um objeto comum: a garra fossilizada de Velociraptor. Grant carrega o artefato para todos os lados. No começo, ela é mostrada como uma ferramenta que sintetiza seu lado profissional e seus receios pessoais. Ele usa a garra para intimidar uma criança desrespeitosa em sua escavação. Ela representa o que ele é. Um homem resumido ao seu trabalho, que não vê mais o mundo com tanto brilho. Para ele, tudo que era bom ficou fossilizado no passado, e tudo no presente era sério e sóbrio.

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A garra de Velociraptor é uma representação do próprio paleontólogo do filme | Foto: Divulgação

Entretanto, conforme a trama avança, e a inocência toma conta do herói, colocando em xeque suas convicções, ele compreende que há mais na vida do que o trabalho. Enquanto luta contra os dinossauros famintos, protegendo a molecada, Grant enxerga o que Ellie vinha tentando mostrar todo esse tempo: talvez ainda haja brilho no futuro.

Então, na cena em que ele está com Lex e Tim sobre a árvore, as crianças vão descansar em seu colo, e Grant acaba arranhado pela garra que carregava. Vendo as crianças e os braquiossautros ao seu redor, ele reflete e joga o artefato fora. Ele se liberta das convicções antigas e abraça as crianças.

Nesta cena tão significativa, Alan Grant entende não somente que pode, sim, ser pai, mas também que seu trabalho de viver mergulhado no passado não poderia ocupar todo seu presente e impedir seu futuro. E essas não são questões que tanto afetam os adultos pelo mundo? Se até em meio à morte certa ele foi capaz de enxergar as belezas da vida e da insegurança que o futuro carrega, o que impede que um adulto tenha essa ótica no cotidiano?

No fim das contas, as maravilhas da tecnologia realmente representam um avanço, mas carregam consigo episódios terríveis. Pessoas se machucam, pessoas morrem por conta da irresponsabilidade de quem trata a tecnologia como sua mascote. A arrogância é punida de forma brutal no filme, que mata praticamente todos aqueles que se preocuparam em tratar a vida como produto, e mostra que nem mesmo a mais avançada tecnologia será capaz de substituir o fator humano.

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O Dr. Grant de Sam Neill descobre um novo lado sobre em si na jornada com a molecada | Foto: Divulgação

No apagar das luzes, Jurassic Park trouxe uma mensagem poderosa para as gerações futuras mascarada pela aventura de estar preso em uma ilha repleta de dinossauros. E se não fosse o trabalho sóbrio, porém sensível de Sam Neill, talvez essa mensagem não fosse entregue de forma tão orgânica e impactante. E talvez não estivéssemos falando sobre ela quase 40 anos depois do lançamento.

Sam Neill, infelizmente, deixou o mundo nesta segunda-feira (13), aos 78 anos, após ser curado de um agressivo câncer no sangue. O ator planejava retornar aos cinemas, após passar cinco anos 100% dedicado ao tratamento, mas não teve tempo para isso. Ainda assim, enquanto existir uma criança dos anos 90 por aí, o legado do ator permanecerá intacto. O homem que foi o herói de uma geração segue impactando vidas com seu trabalho artístico impecável, que conseguiu destacar um olhar extremamente humano em um protagonista cercado por dinossauros. Que descanse em paz o nosso eterno Dr. Grant.