Um senador da República pedindo dinheiro ao operador de escandalosa fraude financeira, a quem trata de "irmão", é tudo menos uma transação corriqueira "de um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai".
A conversa de Flávio Bolsonaro (PL) com Daniel Vorcaro abre o baú de esqueletos com potencial de mudar o rumo desta eleição. Evidencia a relação de proximidade de um candidato a presidente com um personagem cujos golpes envolvem dinheiro público, a quem ele cobra colaboração para a produção de uma peça de propaganda do pai ex-presidente, para ser usada na campanha eleitoral.
Não há nada de privado nisso. Há, sim, o flagrante de agressão ao interesse público no qual se inscreve, além do descrito acima, o fato de o pretendente a comandar a nação ter mentido aos correligionários e, sobretudo, aos que até agora o indicavam como favorito nas pesquisas de intenções de votos.
O impacto negativo na candidatura está posto, faltando apenas medir a extensão do estrago para se esclarecer se Flávio Bolsonaro consegue se livrar do enrosco, se terá de sair de cena da disputa presidencial ou se prossegue mesmo tendo de arrastar essa corrente.
A julgar pela rapidez com que companheiros do PL consideraram o tiro como mortal, começando a falar em substituição, parece ter sido a deixa que esse pessoal esperava para escantear o senador. Colegas da ala direita —Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão)— tampouco se perfilaram ao lado dele. Ao contrário, aproveitaram a oportunidade para marcar distância.
Na ausência de tropa de choque aguerrida, a reação fragiliza a retaguarda do senador e cria um rombo na estratégia de defesa já prejudicada pela negativa inicial seguida pelo desmentido nos áudios. Foi pego na mentira e deixou os correligionários vendidos pela quebra de confiança.
Sendo o destino moleque travesso, o pai que lhe assegura ascensão com o capital do sobrenome o coloca na contingência de um tombo fatal.
*Jornalista e comentarista
de política