A economia brasileira deve perder ritmo no segundo semestre de 2026, após apresentar sinais de desaceleração entre abril e junho. A avaliação é da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que projeta crescimento de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e de 1,1% em 2027, ambos com viés de baixa.
As estimativas constam da edição de agosto do relatório Cenário Econômico. Segundo a entidade, medidas de estímulo à demanda ajudaram a sustentar a atividade no início do ano, mas seus efeitos devem ser mais limitados nos próximos meses. A Fiesp estima avanço de 0,3% do PIB no segundo trimestre, ante alta de 1,1% nos três primeiros meses do ano.
A perda de ritmo aparece nos dados da indústria. A produção industrial caiu 1,8% em junho, pior resultado para o mês desde 2014. No segundo trimestre, o setor cresceu 0,3%, depois de avançar 1,4% no primeiro. Na indústria de transformação, a variação passou de alta de 1,2% para queda de 0,1% entre os dois períodos.
Um indicador antecedente elaborado pela própria Fiesp também aponta risco de retração da produção industrial no segundo semestre. O movimento ocorre em outros setores: entre abril e junho, os serviços avançaram 0,4%, enquanto o comércio registrou queda de 1%.
Emprego perde força
O mercado de trabalho continua com desemprego em patamar historicamente baixo, mas a geração de empregos formais diminuiu 26% no primeiro semestre. Ao mesmo tempo, o nível de endividamento das famílias aparece entre os fatores que podem limitar o consumo nos próximos meses.
As dívidas das famílias chegaram a 49,8% da renda acumulada em 12 meses. Já o comprometimento mensal da renda com juros e parcelas alcançou 28,5%. Os dois indicadores estão entre os maiores níveis registrados desde o início da série, em 2005.
A inadimplência também preocupa a entidade. Entre as pessoas físicas, a taxa no crédito livre chegou a 7,6%, maior patamar em 13 anos. Para a Fiesp, juros elevados, endividamento e inadimplência reduzem o espaço para expansão do consumo.
Em agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. A sinalização, porém, foi de cautela nos próximos cortes, diante de uma inflação que desacelerou, mas permanece acima da meta. A Fiesp espera taxa de 13,75% no fim de 2026 e de 12% em 2027.
Tarifas afetam indústria
O cenário externo acrescenta pressão sobre a atividade. Segundo o relatório, novos ataques no Estreito de Ormuz mantiveram elevado o prêmio de risco sobre petróleo, energia e fretes. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve os juros entre 3,50% e 3,75%, em meio a uma inflação ainda acima da meta de 2%.
As tarifas americanas sobre produtos brasileiros também entraram no cálculo. A sobretaxa de 25%, somada a uma nova cobrança de 12,5%, pode levar a tarifa a 37,5% para a maior parte dos produtos não isentos. Na indústria de transformação, 57,3% do valor exportado aos Estados Unidos ficou sujeito à medida.
Apesar dos riscos, a Fiesp aponta fatores que ainda sustentam a projeção de crescimento de 1,9% neste ano, como a indústria extrativa, a construção civil, os estímulos à demanda e o mercado de trabalho.
Para 2027, a avaliação é mais restritiva. A projeção de crescimento de 1,1% considera a redução dos estímulos fiscais e creditícios após o ciclo eleitoral, além do processo de redução das dívidas das famílias, da inadimplência no crédito às empresas e da permanência dos juros em níveis elevados.
Na avaliação da entidade, a combinação desses fatores deve limitar o consumo das famílias e o investimento privado, deixando a economia com menor impulso no próximo ano.
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