ELIAS MIGUEL HADDAD

Elias Miguel Haddad: uma vida dedicada à indústria, à Fiesp e ao Brasil

Aos 99 anos, ele mantém rotina ativa, participa de reuniões e defende soluções para o país.

Elias Miguel Haddad: uma vida dedicada à indústria, à Fiesp e ao Brasil
Elias Miguel Haddad Crédito: Rafael Chinaglia/Correio da Manhã

Aos 99 anos, Elias Miguel Haddad mantém uma rotina que contraria a ideia de aposentadoria como sinônimo de afastamento. Condecorado presidente emérito da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) há 3 anos, ele continua frequentando diariamente o prédio da entidade, participando de reuniões de diretoria, de conselhos e de encontros institucionais.

Sua trajetória atravessa diferentes fases da indústria brasileira, da expansão da indústria têxtil às transformações tecnológicas, das primeiras experiências de exportação às discussões atuais sobre competitividade, impostos e relações de trabalho.

Nascido em Araraquara, no interior paulista, em 1927, Elias chegou à capital aos 12 anos, acompanhando a família. Sua relação com a indústria começou dentro de casa. Em 1944, a família adquiriu a Malharia Nossa Senhora da Conceição, em Jacareí, pioneira na fabricação de meias no continente americano. Anos depois, formado em engenharia química pela FEI, ele buscou nos Estados Unidos conhecimentos que levaria para os negócios familiares. Especializou-se no Philadelphia Textile Institute e fez estágio na E.I. Du Pont de Nemours.

“Quando eu voltei, assumi a parte técnica de todas as indústrias da família”, conta. Em 1960, após a morte do pai, tornou-se diretor e presidente, apesar de ser o filho mais novo de uma família de seis filhos. 

MEIAS LOLYPOP

Elias participou da modernização da produção de meias no Brasil. A empresa lançou as primeiras meias de náilon na América do Sul e desenvolveu produtos voltados ao público feminino, incluindo meias finas sem costura e em tamanho único. Na década de 1960, a concentração da produção em uma marca deu origem à Lolypop, que se tornou uma das principais marcas próprias da companhia.

As mudanças no comportamento dos consumidores exigiram novas estratégias. Na década de 1970, a popularização do jeans reduziu o espaço das meias finas. A resposta foi aproveitar a experiência acumulada na fabricação de meias para produzir lingerie, mantendo a marca Lolypop. 

A tecnologia também transformou a fábrica. Elias acompanhou a evolução dos equipamentos e decidiu substituir máquinas que considerava ultrapassadas por modelos da italiana Lonati. Segundo ele, foi uma decisão que exigiu investimento, mas permitiu acompanhar as mudanças do setor.

A internacionalização foi outro capítulo importante. Em 1970, Elias liderou o primeiro consórcio de exportação do setor de malharia no Brasil, reunindo fabricantes nacionais para atender a um contrato com o mercado norte-americano. Ao longo da carreira, participou de mais de 47 missões empresariais e integrou conselhos voltados às relações comerciais do Brasil com países como Turquia e Paquistão. Também participou dos conselhos Brasil-Tunísia e Brasil-Egito e da Câmara de Comércio Árabe Brasileira.

Na relação com a Turquia, lembra um período de crescimento do comércio bilateral e de dezenas de missões empresariais. Também participou de articulações para ampliar as conexões aéreas entre os dois países. "Conseguimos um voo direto do Brasil para Turquia" - lembra.  As negociações eram diferentes das atuais. Sem internet e com sistemas de comunicação mais lentos, muitas vezes era preciso esperar horas por uma ligação internacional.

A história da Malharia Nossa Senhora da Conceição chegou ao fim depois de décadas de atividade e de diferentes ciclos da indústria brasileira. Em seu auge, a empresa chegou a empregar cerca de 1,4 mil funcionários.

O encerramento dos negócios, porém, não significou seu afastamento da vida empresarial. Em 1980, participou da articulação que levou à eleição de Luís Eulálio Bueno Vidigal Filho à presidência da Fiesp e, posteriormente, exerceu a vice-presidência em diferentes gestões. No dia 07 de agosto de 2023, recebeu o título honorífico de presidente emérito da entidade.

Ao falar da Fiesp, Elias destaca momentos em que a instituição participou de debates nacionais, como a mobilização contra a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e o posicionamento favorável ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Também recorda uma negociação tributária com o então ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen, do governo Ernesto Geisel. Ao questionar a cobrança de imposto de 5% sobre o setor têxtil, apresentou estudos sobre o custo da arrecadação e recebeu uma alternativa: em vez de isenção, imposto zero, permitindo a compensação dos créditos.

Hoje, uma de suas principais preocupações é a perda de competitividade da indústria brasileira. Para Elias, o problema está no peso dos impostos e na complexidade do sistema tributário. “Nós nem precisamos de incentivos. Era só não ter essa sobrecarga de imposto”, afirma. Na avaliação dele, a indústria precisa de condições para competir, produzir e investir.

O empresário também critica propostas que alterem as relações de trabalho, sem considerar as diferenças entre setores e empresas. Ao comentar a discussão sobre a escala 6x1, defende espaço para que acordos entre trabalhadores e empresas considerem as particularidades de cada atividade.

Apesar das críticas,  mantém uma visão positiva sobre o potencial brasileiro. Para ele, o país tem características que o diferenciam, como grande extensão territorial, recursos naturais, água e litoral. “O Brasil não é um país, é um continente” - diz.

Perguntado como gostaria de ser lembrado daqui a 50 anos, ele diz querer deixar uma mensagem às futuras gerações: "O segredo é não se concentrar nos problemas, mas nas soluções. Eu adoro ter um problema”, afirma, explicando que o problema representa uma oportunidade para buscar uma resposta. A ideia de pensamento positivo, segundo ele, é uma espécie de exercício mental.

 “Como você sabe que não vai dar certo se não tentou?”, questiona. Para Elias Miguel Haddad, a frase sintetiza uma vida construída entre fábricas, máquinas, negociações internacionais, entidades empresariais e a defesa da indústria brasileira.