Antes de aprender que uma obra de arte pode ocupar uma galeria, museu ou parede de uma sala, Fúlvia Gonçalves descobriu que qualquer superfície podia ser lugar para desenhar. Aos quatro anos, rabiscava a calçada, a parede e até mesmo o fogão.
O traço parecia nascer antes mesmo da consciência de que aquilo poderia um dia se transformar em profissão, pesquisa, ensino, revelando uma das trajetórias mais importantes das artes visuais de Campinas. “Precisava ter cuidado comigo, porque eu ia rabiscando tudo”, contou a artista certa mais tarde para o Jornal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Talvez seja justamente essa menina que ainda esteja presente na mulher que, aos 89 anos, continua trabalhando no próprio ateliê. A diferença é que, ao longo de uma vida inteira, aquele impulso infantil ganhou técnica, pensamento, viagens, exposições, livros, alunos, amigos e uma relação profunda com a cidade que a acolheu.
Nascida em Pedreira, em 1937, Fúlvia passou parte da infância em Poços de Calda, estudando depois na Escola de Artes Plásticas de Ribeirão Preto. Ali, encontrou mestres que ajudariam a ampliar o seu olhar. Entre eles, Leonello Berti, Bassano Vaccarini e Francisco Amêndola. Frequentou o ateliê de Wesley Duke Lee e estagiou na Academia de Brera, em Milão.
Foi em Ribeirão Preto que a artista começou a ganhar espaço e a construir a sua carreira. Participou de experiências com cinema de animação e chegou a trabalhar na pintura do filme “Vôo Cósmico”, de Vaccarini. Logo vieram as galerias, museus, salões e exposições no Brasil e no exterior. Em meados dos anos 1970, uma pergunta feita por seu mestre mudaria novamente o rumo da sua história: “Artista, você quer expor na Itália?”. A resposta foi simples e imediata: “Quero!”.
E a Itália viria a fazer parte de sua trajetória. Mas seria Campinas que se tornaria a sua casa artística.
História que se mistura com a da Unicamp
Fúlvia chegou à cidade em 1976 para trabalhar com ensino e pesquisa na Unicamp. Não veio para simplesmente ocupar uma sala de aula. Ela participou da construção de uma área que ainda dava os seus primeiros passos na universidade.
Ao lado de outros artistas e professores, envolve-se na criação de cursos de extensão, na estruturação do Instituto de Artes e na implantação do Departamento de Artes Plásticas, além dos cursos de graduação e pós-graduação. Em 1988, defendeu seu doutorado em Artes pela própria Unicamp.
Sua passagem pela universidade, portanto, não pode ser medida apenas pelo período em que esteve oficialmente como professora, mas, principalmente, pelo o que ajudou a construir nos cursos, nos alunos que aprenderam com ela e até mesmo nas paredes da universidade.
Os murais do Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti, o Caism, são obras dela. A arte de Fúlvia foi incorporada à arquitetura de um hospital que, desde a sua origem, buscava também humanizar o ambiente de atendimento. Em 2024, a artista doou ao Caism 26 obras das coleções “Terra e Semente” e “Humanidades”.
Relação que atravessa décadas
Em 2026, essa ligação voltou a ganhar vida. Entre 15 de abril e 6 de maio, Fúlvia apresentou uma exposição individual no Espaço das Artes da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Aos 89 anos, mais uma vez, ocupava um espaço da instituição que ajudou a construir.
É difícil imaginar um símbolo mais bonito para uma trajetória. A artista, que ajudou a criar um lugar para a arte dentro da universidade, continua encontrando espaço para a sua própria arte ali.
O desenho como forma de guardar o tempo
Uma das características mais fascinantes do trabalho de Fúlvia é revelada na sua relação com a memória. Ela percorreu Campinas com uma caneta tipo Rotring e registrou edifícios, fachadas e detalhes da arquitetura da metrópole. O resultado foi um conjunto de 174 desenhos que, acompanhados de textos do professor e jornalista Benedito Barbosa Pupo, originaram o livro “Testemunhos do Passado Campineiro”, publicado pela Editora da Unicamp.
Enquanto a cidade se transformava, a artista desenhava. Era como se soubesse que aquilo que parecia cotidiano poderia, um dia, tornar-se memória. E, ainda que em circunstâncias desfavoráveis, ela continuava desenhando.
Fúlvia adquiriu uma doença que a impediu de continuar a usar determinados produtos químicos da gravura em metal. Entretanto, em vez de abandonar a técnica, criou a chamada “esferografia”, usando caneta esferográfica para alcançar efeitos semelhantes.
Entre sementes, águas e humanidade
Fúlvia transitou por diferentes técnicas e fases, sempre buscando novas possibilidades. Em “Terra e Semente”, por exemplo, a artista desenvolveu uma técnica própria. Sobre uma superfície preparada com um empaste criado por ela, desenhava diretamente, sem esboço prévio.
O desenho então surgia durante o próprio processo de criação. Só depois vinham as cores, a água, a tinta acrílica, o rolinho. “Eu gosto de variações e sempre procuro texturas novas, um papel diferente, a colagem, a inserção de um objeto incomum”, afirmou em entrevista ao Jornal da Unicamp.
Um dos trabalhos mais conhecidos de sua trajetória é o mural “Balé das Águas”, criado para a Estação de Tratamento de Água 3 (ETA) da Sanasa, em Campinas, na década de 1970. O painel, com cerca de dez metros de comprimento, transformou o processo de tratamento da água em uma espécie de coreografia visual. Décadas depois, a própria artista retomou aquela criação e produziu novos trabalhos a partir dela.
O Louvre e a simplicidade do ateliê
A trajetória internacional de Fúlvia renderia, sozinha, uma reportagem. Ela expôs na Itália, na França, na Espanha, na Suíça, nos Estados Unidos e em outros muitos espaços. Recebeu reconhecimento em Milão e participou de importantes salões e bienais. Uma de suas obras, “Tríptico – Monalisa em Conserva”, foi adquirida em 1989 por Michel Laclotte, ligado ao Museu do Louvre, em Paris.
Depois de tantos lugares, Fúlvia voltou para o lugar mais íntimo de todos: seu ateliê em Campinas.
Uma artista em movimento
Em 2025, com 88 anos, Fúlvia viveu um daqueles momentos que parecem resumir uma carreira inteira. Apresentou 16 obras na Casa do Lago, na Unicamp, e lançou o livro “O Código de Fúlvia”, que reúne textos críticos de Jorge Coli, Pedro Gismondi e Joaquim Fontes Jr., acompanhados por imagens de diferentes fases de sua produção. Na mesma época, expôs trabalhos na Biblioteca Pública Municipal Ernesto Manoel Zink, no Centro de Campinas.
Na ocasião, falou sobre a felicidade diante dos convites para expor e do lançamento do livro como manifestações de reconhecimento da cidade que a acolheu.
Fúlvia escreveu em sua biografia que seu trajeto é “uma relação com o espaço e o tempo”. E, enquanto houver alguém olhando para um de seus desenhos, reconhecendo uma fachada antiga da cidade, descobrindo um mural no Caism, lembrando uma aula ou simplesmente sentindo alguma coisa diante de uma linha, Fúlvia continuará fazendo aquilo que começou ainda criança: desenhando.
Talvez porque, para algumas pessoas, a arte não seja exatamente uma profissão, mas uma maneira de existir. E Fúlvia Gonçalves parece ter passado a vida inteira fazendo do traço uma forma delicada de permanecer.
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