Há lugares que se eternizam pela sua história. O Estádio Moisés Lucarelli, em Campinas, que fica à Praça Dr. Francisco Ursaia, 1900 (número escolhido por ser o ano de fundação do clube), é um deles. Para o torcedor da Ponte Preta, o Majestoso é o palco de disputas a partidas, mas ele também está inscrito da memória da cidade após ser construído por gerações de torcedores que ajudaram a levantar as suas paredes.
Poucos estádios brasileiros carregam uma relação tão direta entre patrimônio, torcida e história.
Tudo começou na fundação da Associação Atlética Ponte Preta, em 11 de agosto de 1900, por estudantes do Colégio Culto à Ciência que jogavam futebol nas proximidades de uma ponte de madeira escurecida pelo betume aplicado para a sua conservação. Foi esta ponte que deu nome ao bairro e, posteriormente, ao clube.
Naquele começo do século XX, o futebol ainda era uma novidade, com campos improvisados, e contar com um estádio próprio estava muito distante da realidade da maioria dos clubes interioranos.
A Ponte Preta, ao longo das primeiras décadas, jogou em diferentes locais na cidade, entre eles, o Campo do Cruzeiro, o Hipódromo Campineiro e, posteriormente, o estádio Júlio de Mesquita, que funcionou como a primeira praça de esportes oficial da Associação Atlética Ponte Preta entre as décadas de 1910 e 1930.
O complexo esportivo foi demolido na década de 1930 e, durante anos, a equipe ficou conhecida de forma pejorativa como o "time de onze camisas", por não ter patrimônio e viver de um campo para outro.
Foi nesse cenário que surgiu a figura de Moysés Lucarelli. Nascido em Limeira, mas profundamente ligado a Campinas e à Ponte Preta, Lucarelli fez do sonho de um estádio próprio em uma verdadeira obsessão. Ao lado de Olímpio Dias Porto e José Cantúsio, participou da aquisição da antiga Chácara Maranhão, uma área de cerca de 30 mil metros quadrados, pertencente à região do bairro Ponte Preta.
A escritura definitiva foi assinada em 1944. O terreno, no entanto, presentava grandes desníveis, áreas alagadiças e pequenos córregos. Foram necessários quase dois anos de àrduo trabalho de terraplanagem, com máquinas cedidas pelo Governo Estadual.
O dinheiro, entretanto, continuava sendo um problema. Foi então que nasceu uma das histórias mais emblemáticas relacionadas ao futebol brasileiro: a "Campanha do Tijolo".
A Ponte podia não ter recursos para erguer o estádio, mas contava com fiéis torcedores. Durante anos, várias caravanas percorreram Campinas recolhendo tijolos, cimento e outros materiais de construção.
Aos finais de semana, torcedores, dirigentes e até mesmo jogadores trabalhavam como operários na construção. O estádio começou literalmente a ser levantado pelas mãos de quem, posteriormente, ocuparia as suas arquibancadas. A pedra fundamental foi lançada em 13 de agosto de 1944, diante de cerca de 5 mil pessoas.
Quatro anos depois, em 12 de setembro de 1948, o estádio foi oficialmente inaugurado com uma partida entre Ponte Preta e XV de Piracicaba, quando o time perdeu por 3 a 0. A primeira vitória no novo estádio viria em pouco mais de um mês depois, em 24 de outubro, quando a Ponte derrotou o Taubaté por 5 a 1.
Mesmo inacabado, o empreendimento impressionava. O estádio, projetado para receber aproximadamente 35 mil pessoas, era gigantesco para os padrões da época, sendo considerado o terceiro maior do país na época.
O futebol, naturalmente, tratou de construir os seus próprios capítulos. Um deles ocorreu em 16 de agosto de 1970, quando a Ponte, pouco depois de conquistar o acesso à elite paulista, recebeu o time do Santos, com Pelé. O "Rei" havia acabado de conquistar a terceira Copa do Mundo com a Seleção Brasileira e sua presença provocou uma verdadeira invasão no Majestoso.
O Santos venceu por 1 a 0, com gol de Pelé, mas o resultado acabou sendo apenas um detalhe diante da dimensão e importância daquela partida.
A década de 1970 marcou também apelo time, vice-campeão estadual de 1977, tornou-se uma das equipes mais lembradas da história do clube. Carlos, Oscar, Polozzi, Vanderlei, Marco Aurélio, Dicá, Lúcio, Rui Rei e Tuta formavam uma equipe que enfrentou o Corinthians na decisão do campeonato.
O Majestoso também foi uma fábrica de jogadores que ultrapassaram as fronteiras da cidade. A dupla Oscar e Polozzi talvez seja o maior símbolo dessa geração. Formados na Ponte, os dois se tornaram uma das principais duplas de zaga do futebol brasileiro. Oscar foi titular da Seleção na Copa do Mundo de 1978 e disputou também os Mundiais de 1982 e 1986.
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