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Campineira criou uma das marcas mais conhecidas do planeta

Criação nasceu da sensibilidade artística da designer Ruth Kedar

Campineira criou uma das marcas mais conhecidas do planeta
Ruth Kedar: talento campineiro que ganhou o mundo Crédito: Arquivo Pessoal

Campinas desde sempre exporta conhecimento. Das salas de aula aos laboratórios, das artes à ciência, muitos de seus “filhos ilustres” ajudaram a transformar o mundo. Entre essas histórias, uma se destaca, porque, curiosamente, o desenvolvimento dela aparece diante dos nossos olhos todos os dias, inúmeras vezes, mas poucos sabem que tudo começou aqui, no interior paulista.

Toda vez que alguém abre o navegador e vê estampadas as seis letras coloridas do Google, está olhando para algo que nasceu da sensibilidade artística de uma campineira: a designer Ruth Kedar.

Nascida em Campinas, em 27 de janeiro de 1955, ela foi a responsável por desenhar o logotipo que acompanhou o crescimento da maior ferramenta de buscas da internet durante 16 anos, tornando-se uma das identidades visuais mais reconhecidas da história.

A origem

Ruth passou a infância em uma Campinas muito diferente da atual, marcada por ruas tranquilas, forte convivência familiar e uma comunidade judaica que havia acolhido seus avós, refugiados da Europa nas décadas de 1920 e 1930.

A família escolheu Campinas para recomeçar a vida, fugindo da perseguição aos judeus na Polônia. Aqui, ela cresceu, estudou e desenvolveu os primeiros traços e talentos que,mais tarde, resultariam na criação de um símbolo que uniria arte, arquitetura e tecnologia.

Às vésperas de completar 16 anos, a família mudou-se para Israel. Agora, ela precisava aprender um novo idioma, adaptar-se a outra cultura e reconstruir a vida longe do Brasil. Foi nessa época que Ruth encontrou na arquitetura uma forma de unir lógica e criatividade.

Formou-se pelo Instituto de Tecnologia de Israel e abriu o seu próprio escritório, desenvolvendo projetos que já indicavam uma característica que marcaria toda a sua carreira, a sua capacidade de transformar ideias complexas em soluções simples e elegantes.

Mais tarde, o desejo de ampliar o seus horizontes a levou aos Estados Unidos. Na Universidade de Stanford, uma das mais prestigiadas do mundo, fez mestrado em Design, e sua pesquisa chamou a atenção da Adobe Systems.

Lá ela participou do inovador Adobe Deck, um projeto que ajudou a demonstrar o potencial criativo do então revolucionário Adobe Illustrator. O trabalho lhe rendeu reconhecimento internacional e abriu as portas para uma carreira que transitava entre arte, design e inovação.

Foi justamente em Stanford que o destino colocou em seu caminho dois jovens estudantes de doutorado em ciência da computação: Larry Page e Sergey Brin, que mais tarde co-fundaram o Google em 1998, enquanto faziam o doutorado na Universidade de Stanford, na Califórnia.

Os jovens estavam criando um buscador de internet que ainda engatinhava e procuravam alguém capaz de traduzir em uma marca a ousadia daquela ideia. Ruth apresentou diversas propostas até chegar ao logotipo que conquistaria os fundadores.

Inovação

Macaque in the trees
Logo do Google de 1998 | Foto: Divulgação/Domínio público

Sua intenção nunca foi a de criar apenas uma palavra colorida. Ela queria transmitir leveza, inteligência e um espírito inovador. Escolheu a fonte Catull, inspirada na tradição da caligrafia, mas com personalidade contemporânea. Distribuiu as cores primárias de maneira propositalmente "quebrada", inserindo o verde na letra "L" para sugerir que aquela empresa não seguiria regras convencionais. O resultado tornou-se um dos maiores exemplos de design atemporal do planeta.

Durante dezesseis anos, de 1999 até 2015, praticamente toda pesquisa realizada na internet começava diante daquele desenho criado por uma brasileira nascida em Campinas. Mesmo quando o Google modernizou a sua identidade visual, substituindo sombras e relevos por um desenho plano, preservou a essência das cores, da simplicidade e do conceito estabelecidos por Ruth Kedar, um reconhecimento silencioso da força de seu projeto original.

Mas reduzir sua trajetória ao Google seria injusto. Ruth construiu uma carreira sólida como artista, professora, palestrante e consultora. Lecionou em Stanford, fundou seu próprio estúdio de design, desenvolveu projetos para empresas e instituições internacionais, recebeu prêmios e teve as suas obras expostas em diversos países.

Ela também se dedica às artes plásticas, produzindo coleções inspiradas na natureza, na espiritualidade, na memória e na experiência humana. Além disso, é praticante de aikidô, tendo alcançado a graduação de quinto dan, uma demonstração de disciplina que ela costuma relacionar ao seu próprio processo criativo.

Raízes brasileiras

Em entrevistas, Ruth demonstra orgulho das raízes brasileiras e guarda lembranças carinhosas da infância em Campinas. Fotografias de família, memórias das ruas da cidade e o acolhimento da comunidade onde cresceu permanecem vivos em sua história, mesmo depois de décadas vivendo no Exterior. Campinas, afinal, foi o primeiro cenário da menina que um dia desenharia um dos maiores símbolos da era digital.

Há um certo encanto em perceber que uma cidade conhecida por suas universidades, pela inovação científica e vocação tecnológica também tenha dado ao mundo a autora de uma marca vista diariamente por bilhões de pessoas. É mais uma prova de que os talentos campineiros ultrapassam fronteiras sem perder o vínculo com suas origens.

Talvez esse seja o maior legado de Ruth Kedar. Muito antes de o mundo falar em inteligência artificial, economia digital ou transformação tecnológica, uma campineira mostrou que o verdadeiro poder do design não está em apenas criar algo bonito, mas em construir uma identidade capaz de atravessar gerações. E poucas imagens conseguiram fazer isso tão bem quanto aquelas seis letras coloridas que continuam abrindo as portas do conhecimento para o mundo inteiro.