Correio da Manhã
Holambra

Holambra: maior polo de flores da América Latina

Cidade abastece aproximadamente 60% do mercado brasileiro de flores

Holambra: maior polo de flores da América Latina
O que começou como uma tentativa de reconstrução da vida de famílias devastadas pela guerra, acabou florescendo para muito além das expectativa no Brasil Crédito: Ariel Canen/Prefeitura de Holambra

Poucas cidades brasileiras conseguiram transformar a sua identidade em um modelo de desenvolvimento econômico e turístico tão bem-sucedido quanto Holambra. Localizada a cerca de 40 quilômetros de Campinas, a origem da pequena cidade, com pouco mais de 15 mil habitantes, foi marcada pela imigração, pelo cooperativismo e pela capacidade de reinventar a própria economia. O município ostenta o título oficial de ‘Capital Nacional das Flores’, respondendo pela maior concentração da produção e comercialização de flores e plantas ornamentais do Brasil.

E como tudo isso aconteceu? Quando, logo após a Segunda Guerra Mundial, mais precisamente, em 14 de julho de 1948, cerca de 500 imigrantes holandeses chegaram à antiga Fazenda Ribeirão, adquirida pela Associação dos Lavradores e Horticultores Católicos da Holanda.

A expectativa era a de recomeçar a vida em terras brasileiras e desenvolver uma colônia agrícola baseada na produção de alimentos e pecuária leiteira. O nome “Holambra” nasceu da união de três palavras: Holanda, América e Brasil.

Adaptação difícil

Macaque in the trees
Holambra | Foto: Ariel Canen/Prefeitura de Holambra

A adaptação ao novo país foi penosa para os colonos. Acostumados ao clima europeu, encontraram um ambiente tropical completamente diferente. O rebanho leiteiro trazido da Holanda sofreu com as altas temperaturas e doenças, obrigando a comunidade a buscar alternativas econômicas.

Aos poucos, os agricultores diversificaram a produção com frutas, hortaliças e outras culturas até descobrirem uma atividade que mudaria para sempre o destino da cidade: a floricultura.

Os primeiros cultivos comerciais de flores começaram na década de 1950, inicialmente com gladíolos e outras espécies ornamentais. O conhecimento técnico dos imigrantes, aliado ao espírito cooperativista, permitiu o rápido desenvolvimento da atividade. Em 1972, a Cooperativa Agropecuária Holambra criou um departamento exclusivo para a floricultura, impulsionando pesquisas, padronização da produção e abertura de novos mercados.

Veiling é implantado

Poucos anos depois, em 1989, foi implantado o Veiling Holambra (palavra que significa literalmente "leilão", um sistema inspirado nos tradicionais leilões holandeses, que revolucionou a comercialização de flores no Brasil e transformou o município no principal centro de distribuição desse segmento.

Atualmente, a cidade abastece aproximadamente 60% do mercado brasileiro de flores e plantas ornamentais e concentra uma parcela significativa das exportações nacionais do setor.

Da cidade partem diariamente milhares de flores para supermercados, floriculturas, atacadistas e centros de distribuição em praticamente todos os estados brasileiros. E ainda, produtores locais exportam mudas, bulbos e flores para mercados da Europa, América do Norte e outros países da América Latina, consolidando a sua vocação internacional.

Entretanto, atualmente, além do agronegócio bem-sucedido, Holambra se tornou conhecida pela Expoflora, que nasceu em 1981 inicialmente como uma estratégia para incentivar o consumo de flores entre os brasileiros.

“Chuva de pétalas”

A ideia deu tão certo que a feira se transformou na maior exposição de flores e plantas ornamentais da América Latina, atraindo centenas de milhares de visitantes todos os anos. O evento reúne exposições florais, paisagismo, gastronomia típica holandesa, danças folclóricas, desfiles temáticos e a tradicional "chuva de pétalas", um dos momentos mais aguardados da programação. Ao longo de mais de quatro décadas, o evento foi decisivo para consolidar o município como destino turístico nacional.

Outro marco significativo ocorreu em 1991, quando a cidade conquistou sua emancipação político-administrativa, deixando de pertencer a Jaguariúna. Em 1998, recebeu do Governo de São Paulo o título de Estância Turística e, em 2011, foi oficialmente reconhecida pelo Congresso Nacional como “Capital Nacional das Flores”, um título que apenas formalizou uma reputação construída ao longo de décadas.

Embora a floricultura movimente a economia local, o turismo tornou-se um segundo importante motor de desenvolvimento local. A arquitetura inspirada nas cidades holandesas, os jardins floridos durante praticamente todo o ano, o maior moinho típico da América Latina, com 38,5m de altura, a gastronomia baseada em receitas tradicionais e as diversas propriedades abertas à visitação transformaram Holambra em um dos destinos mais procurados do interior paulista.

Abastecendo o país

Macaque in the trees
Entrada do municípo de Holambra, cidade integrante da Região Metropçitana de Campinas | Foto: Alesp

Na prática, boa parte das flores compradas pelos brasileiros em datas comemorativas, como Dia das Mães, Dia dos Namorados, Finados e Natal, passou, em algum momento, por Holambra, visto que ela tornou-se um elo estratégico entre centenas de produtores e milhares de pontos de venda espalhados pelo país, mantendo vivo o espírito cooperativista que deu origem à cidade há quase oito décadas.

O que começou como uma tentativa de reconstrução da vida de famílias devastadas pela guerra acabou florescendo muito além das expectativas. Holambra transformou dificuldades em oportunidades, fazendo da cooperação a sua principal ferramenta de crescimento e provando que tradição, inovação e planejamento podem caminhar lado a lado.

Hoje, mais do que um cartão-postal repleto de flores, o município é exemplo de um dos casos mais bem-sucedidos de desenvolvimento agrícola, econômico e turístico do nosso país.