Poucas cidades brasileiras reúnem características tão peculiares quanto Campinas quando o assunto é organização urbana. Entre universidades de ponta, centros tecnológicos, parques industriais e uma das economias mais robustas do país, existe uma particularidade que a transforma em um caso praticamente único no Brasil: o Jardim Itatinga, um bairro considerado por pesquisadores e urbanistas como o único no território brasileiro criado especificamente para concentrar a atividade da prostituição.
Por lá estima-se que circulem cerca de 2 mil profissionais do sexo por mês, permitindo o funcionamento de mais de 200 casas de prostituição de diversos tamanhos.
No entanto, é necessário abrir um parênteses sobre isso, já que o bairro nasceu para concentrar uma atividade que, paradoxalmente, é legal no seu exercício individual, reconhecida pelo Estado como uma ‘ocupação’, mas ainda cercada por debates morais, sociais e jurídicos que permanecem abertos até hoje.
Isso porque a prostituição em si não é crime no Brasil, visto que uma pessoa adulta pode oferecer serviços sexuais de forma voluntária em troca de pagamento sem cometer qualquer ilegalidade.
Reconhecimento profissional
Do ponto de vista profissional, existe um reconhecimento formal interessante: desde 2002, o Ministério do Trabalho incluiu a ocupação "Profissional do Sexo" na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), sob o código 5198-05. Contudo, essa inclusão não criou uma profissão regulamentada nem estabeleceu direitos trabalhistas específicos.
Voltando à origem do bairro, a história do local começa muito antes da fama. A área pertencia a uma antiga fazenda de café chamada Pedra Branca. O próprio nome ‘Itatinga’ deriva do tupi e significa justamente "pedra branca", referência direta à antiga propriedade rural que ocupava aquela região da cidade. Até meados dos anos 1960, nada indicava que aquele loteamento periférico se transformaria em um dos lugares mais conhecidos, e controversos, da metrópole.
A transformação ocorreu durante um período de profundas mudanças urbanas. Campinas crescia rapidamente impulsionada pela industrialização, expansão populacional e modernização de sua infraestrutura.
Ao mesmo tempo, os pontos de prostituição se espalhavam por diferentes regiões da cidade, especialmente nas áreas centrais e no bairro Taquaral, quando ele ainda não dispunha do atual perfil valorizado, que adquiriu décadas depois.
Surge uma ‘solução’
Foi então que surgiu uma solução que hoje parece difícil de se imaginar. Autoridades municipais e forças policiais passaram a incentivar, e, em muitos casos, a pressionar, a transferência das casas de prostituição e das profissionais do sexo para uma área específica, longe dos bairros considerados ‘familiares’.
A pressão era parte de uma visão moral bastante comum na época, segundo a qual seria possível separar, espacialmente, aquilo que era visto como indesejável do restante da cidade. Pesquisadores descrevem esse processo como uma espécie de política de confinamento urbano da prostituição.
Então, em 1966, o Jardim Itatinga passou a assumir oficialmente a função pela qual se tornaria conhecido nacionalmente. A meta era a de concentrar, em um único local, uma atividade que anteriormente se distribuía por diferentes bairros campineiros. A chamada "Operação Limpeza", como ficou conhecida na época, contou com apoio de setores da opinião pública.
Organização complexa
O mais curioso sobre esta história é que uma política criada para restringir acabou produzindo o efeito oposto. Em vez de desaparecer, a atividade econômica do sexo se consolidou e se expandiu.
Com o passar das décadas, o Itatinga desenvolveu uma dinâmica própria, formando um território que passou a reunir casas noturnas e estabelecimentos voltados à prostituição, mas também uma rede de serviços, comércio, moradia e circulação de pessoas.
Estudos acadêmicos da Unicamp revelam que o bairro desenvolveu uma complexa organização social e econômica, tornando-se um espaço urbano singular dentro da metrópole campineira. A localização também acabou ajudando a explicar a sua permanência. O bairro, na região sudoeste do município, fica próximo das rodovias Santos Dumont e Bandeirantes e relativamente perto do Aeroporto Internacional de Viracopos.
Essa posição periférica atendia perfeitamente ao propósito original de manter a atividade distante das áreas mais valorizadas da cidade.
Fama nacional
Ao longo do tempo, o Jd. Itatinga ganhou fama nacional e passou a ser frequentemente citado como uma das maiores zonas de prostituição da América Latina. A definição varia conforme a fonte e nem sempre é possível medi-la com precisão. Entretanto, o consenso entre os pesquisadores é de que se trata de um dos mais extensos territórios urbanos brasileiros associados à atividade.
O aspecto mais intrigante talvez seja a contradição histórica que o bairro representa. Campinas, frequentemente associada à inovação tecnológica, pesquisa científica e excelência universitária, abriga também um espaço cuja origem encontra-se em uma política de segregação urbana.
Em outras palavras, o Itatinga nasceu da tentativa de esconder uma realidade social, mas acabou transformando-se em uma marca permanente da própria identidade campineira.
Nas últimas décadas, o bairro se tornou objeto de estudos acadêmicos, documentários, reportagens e pesquisas sobre urbanismo, gênero, trabalho sexual e ocupação do espaço urbano.
A região passou a ser observada menos sob a ótica moral que predominava nos anos 1960 e mais como um fenômeno social, econômico e histórico que ajuda a compreender a própria evolução da metrópole.
Um caso raro no país
Hoje, quase seis décadas após a sua criação, o Jd.Itatinga permanece como um caso raro no país. Não se trata apenas de um bairro conhecido pelos prostituição. É um território cuja existência foi planejada justamente para esse fim. Um bairro inteiro criado para concentrar uma atividade que outras cidades preferiram dispersar ou simplesmente ignorar.
Entre as muitas singularidades de Campinas, poucas são tão curiosas, controversas e historicamente reveladoras.
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