Campinas

Grupo que planejou matar promotor é condenado por lavagem de dinheiro do PCC em Campinas

Grupo que planejou matar promotor é condenado por lavagem de dinheiro do PCC em Campinas
Maurício Silveira Zambaldi e José Ricardo Ramos foram presos em operação que envolveu a PM Crédito: Polícia Militar/BAEP

A Justiça, por meio da 4ª Vara Criminal de Campinas, condenou na terça-feira (4) 14 pessoas por integrarem um robusto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O grupo, desarticulado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) nas operações Off White, Linha Vermelha e Pronta Resposta, também foi apontado por planejar o assassinato do promotor de Justiça Amauri Silveira Filho e de um comandante de uma força policial.

As penas somadas dos réus chegam a cerca de 111 anos de prisão. A sentença também determina o pagamento de R$ 10 milhões a título de reparação mínima por danos morais coletivos.

De acordo com a denúncia, a engrenagem financeira era centralizada na revendedora de veículos Dragão Motors, sediada em Campinas. O proprietário do estabelecimento, Maurício Silveira Zambaldi, o "Dragão", apontado como líder do núcleo criminoso, foi condenado a 13 anos e nove meses de prisão. As investigações revelaram que ele e a esposa, Vanessa Janizelo Zambaldi, utilizavam as contas vinculadas às empresas do casal para ocultar a origem ilícita de recursos provenientes prioritariamente do tráfico de drogas, mesclando-os ao faturamento regular.

A organização recebia repasses de membros da facção e atraía investidores do crime com a promessa de rendimentos mensais entre 2% e 4%. O montante lavado era injetado na aquisição de imóveis, carros de luxo e motocicletas importadas. O esquema também operava por meio de empréstimos informais a terceiros com cobrança de juros elevados. Quando os credores exigiam o retorno do capital, os pagamentos ocorriam por meio de transferências bancárias fracionadas ou pela entrega dos veículos de alto valor.

Para dar aparência de legalidade à movimentação milionária, o grupo contava com parceiros estratégicos, como José Ricardo Ramos, o "Zé Ricardo", dono da transportadora JR Ramos. Outra peça-chave na articulação era Sérgio Luiz de Freitas Filho, conhecido como "Mijão" ou "Xixi". Apontado como um dos chefes na hierarquia do PCC, ele encontra-se foragido na Bolívia, de onde coordenava ordens e enviava recursos ao núcleo campineiro.

O plano de execução

O Ministério Público detalhou que a estabilidade financeira do grupo começou a ruir após um calote superior a R$ 30 milhões, gerado por inadimplência nos empréstimos concedidos. A crise interna se agravou drasticamente em fevereiro de 2025, durante a deflagração da Operação Linha Vermelha, que teve a Dragão Motors como um de seus principais alvos de busca.

Acuado pela pressão de credores que cobravam os valores investidos e temendo represálias da facção, Zambaldi recorreu a "Zé Ricardo" e "Mijão". Em uma tentativa de frear a persecução criminal e tumultuar as investigações, o núcleo passou a orquestrar a execução do promotor integrante do Gaeco e do comandante policial.

O magistrado responsável pela sentença ressaltou que as apurações sobre o plano de morte nasceram de dados de inteligência que foram integralmente corroborados por diligências posteriores. Isso não apenas confirmou a ameaça, como permitiu a identificação de novos envolvidos e a deflagração das operações subsequentes.

Ao proferir a condenação, o Juízo enfatizou a solidez das provas reunidas pelo Gaeco, incluindo quebras de sigilo, relatórios de inteligência e vasta documentação apreendida, afastando todas as alegações de nulidade apresentadas pelas defesas.

Posicionamentos

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) informou que ainda não foi intimado oficialmente e que avaliará o teor da sentença assim que tomar conhecimento de seu conteúdo. Já a defesa de Maurício Zambaldi declarou nesta quarta-feira (5) que recebeu a decisão com "tranquilidade" e confirmou que recorrerá da condenação junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).