"Já foi? Que pena", disse Haddad após ter fala interrompida em aula magna na Unicamp
A aula magna ministrada pelo pré-candidato ao governo do Estado de São Paulo e ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), na noite desta quinta-feira (2), no Teatro de Arena da Unicamp, foi marcada por uma breve interrupção e confusão provocada por um pequeno grupo de indivíduos de extrema-direita. Um dos envolvidos pelo influencer Matheus Pereira (Missão), ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre) que interrompeu a aula magna aos gritos.
Sob fortes vaias do público presente, o manifestante acelerou o passo e retirou-se rapidamente do local, quase correndo, sem dar tempo para o diálogo ou para sustentar o questionamento feito.
O Teatro de Arena tem capacidade para cerca de 800 pessoas e estava lotado por estudantes, professores e apoiadores para ouvir a aula ministrada por Haddad, que é professor doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).
"Ele já foi? Que pena..."
O ex-ministro reagiu por alguns segundos ao ocorrido antes de retomar a palestra, destacando a falta de disposição do rapaz para o debate. Ao notar a fuga imediata, Haddad lamentou o recuo ao microfone: "Ele já foi? Que pena, porque, se tivesse ficado, eu podia conversar e respondê-lo", comentou em tom mais baixo o palestrante, evidenciando que o intuito do ato foi apenas a interrupção barulhenta, e não o confronto democrático de ideias.
Confusão externa
A provocação interna acabou estendendo-se para o lado de fora do Teatro de Arena, gerando um princípio de briga generalizada e troca de agressões nas proximidades da Diretoria Acadêmica (DAC). Em vídeos que circulam na internet, Pereira aparece recebendo uma rasteira durante tentativa de dispersão. Funcionários da Unicamp que tentavam conter a confusão foram agredidos e ameaçados, conforme mostram as imagens. A confusão entre participantes do evento e o grupo que provocou também foi marcada por socos e agressões físicas de ambos os lados, mas não há notícia de feridos.
Unicamp repudia interrupção de atividade acadêmica
Em nota oficial divulgada nesta sexta-feira (3), a Reitoria da Unicamp condenou veementemente os atos de violência e o tumulto registrados. "A interrupção, por meio de agressões, de uma atividade acadêmica aberta à comunidade é inaceitável e contraria os princípios mais fundamentais da instituição. (...) Divergências políticas e ideológicas são bem-vindas e devem ser expressas dentro do respeito mútuo e das regras do debate acadêmico, jamais por meio de violência ou intimidação", diz a nota.
Histórico de agressões na Unicamp
Há cerca de uma semana, ocorreu outra confusão envolvendo o mesmo grupo, que durante cerimônia em que Fernando Haddad recebia o título de cidadão honorário de Santo André (SP), o gritou insultos e provocações e foi expulso do local.
O episódio desta quinta-feira não é um caso isolado, mas parte de uma sequência de ações de grupos ligados ao MBL e à extrema-direita que têm tensionado a rotina acadêmica da Unicamp nos últimos meses através de investidas sem autorização institucional.
Em fevereiro deste ano, o mesmo grupo invadiu o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) portando latas de tinta branca. Na ocasião, os invasores vandalizaram grafites e murais artísticos produzidos por alunos da universidade, incluindo manifestações de coletivos negros e LGBTQIAPN+, durante as atividades de recepção aos calouros. A ação terminou em confronto físico e deixou três estudantes feridos. Na época, a direção do IFCH apontou que o instituto já havia sido alvo de quatro ou cinco episódios similares de ativistas gravando vídeos provocativos para plataformas digitais.
Posteriormente, em março, um acampamento pacífico de estudantes em greve montado em frente ao Ciclo Básico 2 foi atacado na madrugada por homens associados ao mesmo movimento. O grupo derrubou barracas e proferiu ofensas e ameaças físicas contra as alunas e os vigilantes do campus, resultando em um boletim de ocorrência por injúria e ameaça registrado no 7º Distrito Policial de Barão Geraldo.
A recorrência dessas ações tem sido classificada por lideranças locais como uma estratégia de engajamento digital. Em manifestações recentes sobre os episódios no campus, parlamentares da região denunciaram a atuação dessas frentes como "violência política" conduzida por extremistas que buscam intencionalmente gerar conflitos físicos para extrair recortes de vídeo e impulsionar suas campanhas eleitorais nas redes sociais através do ódio e da coação.
Haddad
Nas redes sociais, Haddad não mencionou o incidente e destacou a importância estratégica de Campinas para o desenvolvimento do Estado de São Paulo e para o Brasil. "É sempre muito bom estar aqui para conversar com estudantes, professores e pesquisadores sobre o futuro do nosso estado e do nosso país", afirmou.
"O Governo Federal tem atuado em várias frentes para a cidade e a região seguirem avançando: com investimentos no Trem Intercidades (TIC) São Paulo - Campinas, além do fortalecimento de projetos únicos na América Latina, como o Sirius e o Orion", disse. (Leia mais em matéria especial sobre a aula magna no Correio da Manhã).
Posicionamento estudantil
Além do posicionamento da Reitoria, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unicamp também se manifestou, lamentando o ocorrido e acusando o grupo externo de desrespeitar os funcionários da segurança patrimonial da universidade. De acordo com a entidade, os militantes de direita foram ao evento com o propósito exclusivo de provocar e criar um ambiente de baderna. A organização do evento controlou a situação internamente e a Polícia Militar, embora acionada, informou que não precisou intervir na área interna do campus.
Políticos da esquerda de Campinas participaram da Aula Magna, entre eles o pré-candidato a deputado federal, Pedro Tourinho (PT), que chegou a discursar brevemente antes da aula de Haddad começar; os vereadores Wagner Romão, Guida Calixto (pré-candidata a deputada estadual) e Paolla Miguel - do PT; as vereadoras Fernanda Souto (pré-candidata a deputada estadual) e Mariana Conti, do PSOL, e o vereador Gustavo Petta (PCdoB), pré-candidato a deputado estadual.