A Câmara Municipal de Campinas aprovou a criação da Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Contorno Norte de Campinas. Proposto por meio de um requerimento do vereador Wagner Romão (PT), que assumirá a presidência do colegiado, o grupo de trabalho tem como principal objetivo abrir um canal formal de debates e monitoramento rigoroso em relação ao projeto de implantação de uma nova rodovia de 32 quilômetros de extensão. O traçado planejado atravessa os municípios de Campinas, Paulínia e Sumaré, gerando intensos debates por prever intervenções em áreas que atualmente correspondem a patrimônios protegidos, trechos tombados, polos de pesquisa e zonas de sensibilidade ambiental.
A Frente Parlamentar no Legislativo campineiro é um instrumento composto por vereadores de diferentes legendas partidárias. A intenção é articular uma atuação política coordenada para acompanhar a evolução do projeto, sugerir diretrizes e propor políticas públicas que resguardem os interesses da população e o patrimônio regional.
"Temos uma profunda preocupação com os severos impactos sociais e ambientais que podem ser provocados na execução do atual projeto do Contorno Norte. Queremos acompanhar o tema de perto e, ao lado da sociedade civil, pensar em iniciativas para que possamos proteger nosso patrimônio ambiental, arquitetônico e ferroviário e, quem sabe, buscar uma solução, que pode passar até pelo cancelamento do projeto", afirmou o vereador Wagner Romão.
A iniciativa coincide com a decisão da Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI) do Estado, que no final de maio determinou a suspensão temporária dos estudos do projeto por 90 dias.
O projeto viário e o gargalo no tráfego regional
O Governo do Estado de São Paulo recebeu recentemente os estudos técnicos voltados para a viabilidade do chamado Contorno Norte da Rodovia D. Pedro I (SP-65). O empreendimento foi projetado como um novo anel viário com o intuito de desviar o tráfego pesado de caminhões e veículos de grande porte do trecho urbano da rodovia em Campinas, atualmente apontado como um dos pontos de maior saturação viária e congestionamento de toda a Região Metropolitana.
Tanto o projeto funcional quanto o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) foram desenvolvidos pela concessionária Rota das Bandeiras, empresa responsável pela administração do Corredor Dom Pedro, atendendo a uma solicitação expressa da Secretaria Estadual de Parcerias em Investimentos (SPI).
A proposta detalha a construção de um corredor rodoviário de aproximadamente 32 quilômetros. De acordo com as diretrizes preliminares, o traçado teria início na intersecção da Rodovia D. Pedro I com o Anel Viário Magalhães Teixeira (SP-083), nas proximidades do distrito de Sousas, em Campinas. A partir dali, a nova pista seguiria até o entroncamento com a Rodovia Anhanguera (SP-330), prevendo também conexões intermediárias com a Rodovia Professor Zeferino Vaz (SP-332) e com a Rodovia Governador Adhemar Pereira de Barros (SP-340), cruzando territórios geográficos de Campinas, Paulínia e Sumaré.
Os dados de tráfego justificam a busca por alternativas logísticas: atualmente, o trecho urbano da Rodovia D. Pedro I registra um fluxo médio de cerca de 125 mil veículos por dia. Nos horários de pico, os motoristas enfrentam retenções severas que frequentemente atingem dez quilômetros de extensão, concentradas principalmente entre os entroncamentos das rodovias Zeferino Vaz e Anhanguera. No final da tarde, o deslocamento rotineiro entre Campinas e Sumaré chega a demandar mais de uma hora de viagem.
Mobilização social e os alertas sobre os impactos ambientais
Mesmo sem uma deliberação oficial e conclusiva do Estado para o início das obras, a simples apresentação do traçado preliminar desencadeou fortes reações e mobilizações por parte de moradores, internautas e coletivos ambientais das regiões que podem ser diretamente afetadas. Na linha de frente do movimento civil organizado estão grupos como o Movimento Preserva Barão, atuando de maneira conjunta com o Preserva Paulínia e o coletivo Sustentabilize.
Os questionamentos centralizam-se na magnitude dos impactos ambientais descritos como gigantescos pelas entidades locais. Segundo os representantes desses movimentos, o traçado proposto intercepta uma porção expressiva de fragmentos de áreas verdes e bacias pluviais situadas na região Norte de Campinas. Esses fragmentos florestais desempenham a função vital de corredores ecológicos, conectando diretamente a Mata Santa Genebra à Área de Proteção Ambiental (APA) de Joaquim Egídio. A interrupção ou fragmentação dessa rota põe em risco a sobrevivência e o tráfego da fauna silvestre local, incluindo espécies ameaçadas como a onça-parda.
Os ambientalistas alertam que o impacto real da rodovia transcende a faixa asfáltica. Há a preocupação com uma zona de influência direta de, no mínimo, 50 metros para cada lado das pistas, onde os ecossistemas seriam severamente afetados por ruídos constantes, poluição atmosférica e iluminação artificial noturna, desestabilizando os hábitos e o habitat dos animais nativos.
Além disso, manifestações em redes sociais demonstram receio quanto à supressão de vegetação nativa, impermeabilização do solo, aumento do risco de enchentes e a pressão imobiliária sobre a zona de amortecimento da Mata Santa Genebra, considerada a segunda maior floresta urbana do País. Moradores demonstram forte contrariedade ao modelo de expansão urbana baseado em loteamentos fechados e na dependência do transporte automotivo individual. Áreas residenciais consolidadas nos distritos de Barão Geraldo, Betel e arredores temem desapropriações, a desvalorização de propriedades rurais e o aumento do tráfego pesado próximo a bairros residenciais.
O vereador Wagner Romão reforçou esses pontos em pronunciamentos públicos, destacando que a concretização do segmento rodoviário nos moldes atuais trará prejuízos à qualidade do ar e comprometerá a segurança viária de pedestres e ciclistas que circulam pelas adjacências. "Vários dos nossos patrimônios históricos e ambientais também seriam profundamente impactados, de acordo com o projeto preliminar, uma vez que são diversas áreas verdes e unidades de conservação que seriam atingidas pelas obras", detalhou o parlamentar, fazendo alusão direta aos patrimônios ambientais, arquitetônicos e ferroviários da região.
Manifestações Oficiais: Estado, Concessionária e Prefeitura
Diante do cenário de discussões e da instalação da Frente Parlamentar, os órgãos envolvidos e as esferas administrativas emitiram posicionamentos formais para esclarecer o andamento real do projeto:
Rota das Bandeiras: A concessionária informou que recebeu, no final de maio de 2026, um despacho oficial emitido pela Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI) do Estado de São Paulo determinando a suspensão temporária dos estudos relativos ao projeto do Contorno Norte pelo prazo de 90 dias. A empresa ressaltou que somente após a conclusão definitiva dos estudos ambientais, do projeto funcional e do projeto executivo haverá uma análise minuciosa por parte do governo estadual para definir a viabilidade econômica, técnica e ambiental da obra. A concessionária destacou, ainda, que a implantação deste contorno sequer encontra-se prevista no contrato original de concessão do Corredor Dom Pedro.
Cetesb: A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo esclareceu que, até o presente momento, não houve a abertura formal de nenhum processo de licenciamento ambiental prévio voltado para o empreendimento, uma vez que o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) ainda não foram protocolados junto ao órgão administrativo. A companhia frisou que, assim que os documentos forem apresentados, a análise técnica avaliará rigorosamente todos os potenciais impactos, as alternativas locacionais de traçado e exigirá a indicação de medidas claras de mitigação, compensação e monitoramento socioambiental.
Prefeitura de Campinas: O Executivo municipal emitiu uma nota oficial esclarecendo as competências institucionais e rebatendo críticas sobre o ordenamento urbano da região:
A gestão da Rodovia Dom Pedro I e as tratativas do traçado do Contorno Norte competem diretamente à concessionária Rota das Bandeiras e à Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), órgãos responsáveis pela condução das diretrizes logísticas e ambientais junto ao Estado;
Eventuais solicitações para a implantação de novos condomínios e empreendimentos imobiliários nas margens ou proximidades da rodovia dependem, obrigatoriamente, de um parecer técnico prévio emitido pela Rota das Bandeiras e pela Artesp antes de qualquer aval municipal;
Cabe ao município a análise urbanística e a liberação de tais empreendimentos, realizando um planejamento focado na exigência de vias marginais e sistemas viários locais integrados, evitando que o tráfego interno desses bairros seja direcionado para as faixas de rolagem da rodovia principal;
A Prefeitura enfatizou expressamente que não procede a afirmação de que há um crescimento desordenado de condomínios na região Norte. A administração reiterou que todas as aprovações de novos projetos imobiliários seguem rigorosamente as exigências e diretrizes contidas no Plano Diretor e na legislação de zoneamento urbano em vigor, as quais foram amplamente debatidas e elaboradas com a participação da sociedade civil por meio de oficinas e audiências públicas.
A instalação da Frente Parlamentar surge, portanto, em um momento estratégico de suspensão temporária dos estudos, configurando-se como o espaço institucional em que os movimentos civis, a concessionária, os órgãos ambientais do Estado e o poder público municipal deverão confrontar dados técnicos e anseios sociais antes de qualquer decisão definitiva sobre o futuro da mobilidade e da preservação ambiental na região.
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