Campinas confirma mais dois casos de superbactéria na UTI do Hospital Mário Gatti

Com os novos registros, sobe para nove o número de pacientes diagnosticados com o microrganismo na unidade

Por Moara Semeghini - Campinas

Prefeitura de Campinas confirmou mais dois casos de infecção pela bactéria multirresistente KPC em pacientes internados na UTI adulto do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti

A Prefeitura de Campinas confirmou na tarde desta segunda-feira (16) mais dois casos de infecção pela bactéria multirresistente KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase) em pacientes internados na UTI adulto do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas. Com os novos registros, sobe para nove o número de pacientes diagnosticados com o microrganismo na unidade. Segundo a rede hospitalar, não houve óbitos relacionados à infecção.

De acordo com a Rede Municipal Dr. Mário Gatti, os dois novos pacientes já estavam internados na UTI há mais de sete dias antes da adoção do plano de contingência para conter a disseminação da bactéria. Os exames que confirmaram as infecções ficaram prontos antes da transferência desses pacientes para uma ala de UTI contingencial criada no hospital para receber apenas pessoas sem a presença do microrganismo.

A KPC é considerada uma superbactéria associada a ambientes hospitalares de alta complexidade e costuma ser monitorada rotineiramente pelas equipes assistenciais e pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar.

Como medida preventiva, a UTI adulto do hospital permanece temporariamente sem receber novas internações desde o dia 10 de março. A decisão, segundo a rede municipal, foi adotada por critérios técnicos para ampliar o controle epidemiológico e garantir a segurança dos pacientes. A previsão é que o funcionamento normal da ala seja retomado entre 20 e 30 dias, dependendo da evolução do cenário.

Os nove pacientes diagnosticados com a bactéria permanecem isolados em um salão específico da UTI, com equipe exclusiva de atendimento. Os demais pacientes da unidade foram transferidos para leitos de mesma complexidade em uma UTI contingencial criada dentro do hospital. A direção também informou que houve reforço nas medidas de limpeza, desinfecção e higienização.

Enquanto durar a restrição, pacientes que necessitarem de internação em terapia intensiva serão encaminhados para leitos do Hospital Ouro Verde ou para vagas em outras unidades da rede por meio da central municipal de regulação. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) também foi orientado a não direcionar novos pacientes com necessidade de UTI para o Mário Gatti neste período.

A Rede Mário Gatti afirmou que continua monitorando a situação da bactéria e que as medidas de controle serão mantidas até a completa estabilização do cenário assistencial.

Hospitais superlotados

O episódio ocorre em um momento de forte pressão sobre os hospitais que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Campinas. Levantamento realizado nesta segunda-feira (16) pelo Correio da Manhã aponta que o Hospital de Clínicas da Unicamp registra cerca de 317% de ocupação na Unidade de Emergência Referenciada (UER), enquanto enfermarias e UTIs operam com ocupação total e rotatividade diária de pacientes.

Na rede municipal, os hospitais Mário Gatti e Ouro Verde trabalham com taxas de ocupação entre 95% e 100% dos leitos. Já o Hospital PUC-Campinas informou que o pronto-socorro que atende pacientes do SUS opera atualmente com cerca de 250% de ocupação, com pacientes acomodados em macas nos corredores devido à alta demanda. Diante da superlotação, a instituição suspendeu por tempo indeterminado a realização de cirurgias eletivas destinadas ao SUS e informou que, neste momento, não tem condições de receber novos casos encaminhados pelo sistema público de saúde.

Superbactéria

A KPC (Klebsiella pneumoniae Carbapenemase) é uma superbactéria multirresistente comum em ambientes hospitalares, capaz de produzir uma enzima que neutraliza antibióticos potentes, incluindo os carbapenêmicos, usados em infecções graves. O microrganismo pode provocar quadros como pneumonia, infecções urinárias, respiratórias e infecções da corrente sanguínea, e apresenta alta taxa de mortalidade em pacientes vulneráveis. O tratamento costuma ser limitado a poucos medicamentos disponíveis, como as polimixinas.

A bactéria pertence ao grupo da Klebsiella pneumoniae, considerada uma das mais perigosas do mundo devido à sua resistência a antibióticos e capacidade de causar infecções hospitalares graves. Em 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o microrganismo na categoria “crítica”, o nível mais alto de preocupação em sua lista de bactérias contra as quais o desenvolvimento de novos medicamentos é considerado urgente.

Segundo especialistas, esses microrganismos evoluíram ao longo dos anos e desenvolveram mecanismos capazes de driblar antibióticos existentes, o que dificulta o tratamento das infecções.

No caso do Hospital Mário Gatti, a presença da bactéria foi identificada durante o monitoramento de rotina realizado pelas equipes assistenciais e pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar.

Embora a KPC seja considerada relativamente comum em ambientes hospitalares de alta complexidade, neste episódio houve dificuldade em conter a disseminação entre pacientes da UTI, o que levou à adoção de medidas emergenciais.

Estado de SP

O Governo do Estado de São Paulo anunciou na sexta-feira (13) que deve publicar nos próximos dias um chamamento público para a contratação de 2.760 procedimentos mensais, entre cirurgias, internações e leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), na região de Campinas. 

 

A Secretaria de Estado da Saúde também afirmou que mantém diálogo permanente com a Prefeitura de Campinas para ampliar a oferta de leitos e serviços na região. Segundo a pasta, o projeto do Hospital Estadual de Campinas está em fase final de preparação e a publicação da licitação para a construção da nova unidade deve ocorrer nos próximos dias.