A segunda edição do projeto “Sob os Pés do Mundo: Arte e Inclusão” será encerrada em Sobradinho com uma exposição no Teatro de Sobradinho, no Distrito Federal. A mostra poderá ser visitada gratuitamente a partir de sábado (3) até 2 de novembro e reunirá 15 obras táteis produzidas a partir de oficinas e vivências realizadas com estudantes e quatro pessoas com deficiência.
No dia 14 de outubro, o artista visual, sociólogo e pesquisador italiano Flavio Marzadro e os participantes do projeto farão uma visita guiada aberta ao público.
As obras foram produzidas a partir de texturas, percursos, memórias e experiências relacionadas a diferentes espaços da cidade. Os trabalhos têm títulos em Braille, letras ampliadas, audiodescrição disponível por QR Code e paisagens sonoras com registros realizados nos locais que deram origem às peças. O toque integra a experiência de visitação.
Realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF) e gestão do Instituto Lente Cultural, o projeto desenvolveu atividades em duas frentes. A primeira envolveu oficinas sensoriais com cerca de 80 estudantes do Centro de Ensino Especial de Sobradinho (CEE 01) e do Centro de Ensino Médio de Sobradinho (CEM 02). A segunda foi formada por vivências com quatro moradores de Sobradinho e outras regiões do Distrito Federal, que compartilharam trajetórias, deslocamentos e formas de relação com os espaços urbanos.
Nas oficinas, conduzidas por Marzadro, com colaboração da ceramista Geusa Joseph e de monitores, os estudantes foram convidados a perceber diferentes superfícies usando os pés, as mãos e outras partes do corpo. Pisos, calçadas e elementos presentes nos ambientes escolares foram observados como materiais para a criação artística.
Flotagem
A partir dessas experiências, foram produzidos moldes e composições utilizando a técnica de “flotagem”, empregada para registrar relevos e texturas das superfícies. Os trabalhos resultantes das quatro oficinas foram apresentados em exposições realizadas nos próprios ambientes escolares. As atividades também contaram com recursos de acessibilidade, como audiodescrição e mediação sensível.
A segunda etapa aproximou o artista de quatro pessoas com deficiência: Iasmyn de Souza Queiroz, 24 anos, cadeirante; Lúcia de Fátima Azevedo da Silva, 53 anos, com síndrome de Down; Mitsuo Sato, 73 anos, que perdeu a visão na vida adulta; e Cícero Lopes, 59 anos, jornalista, ilustrador, designer gráfico e professor de desenho, autista com diagnóstico tardio.
Os encontros envolveram conversas, caminhadas e deslocamentos por locais relacionados às histórias dos participantes. As experiências deram origem a registros que integram as obras expostas e também a um minidocumentário que fará parte da mostra.
Experiências
Iasmyn de Souza Queiroz compartilhou sua relação com a cidade a partir da experiência de uma pessoa que utiliza cadeira de rodas. Após um período de mudanças na rotina durante e depois da pandemia, ela retomou os estudos, passou a estudar inglês e ampliou sua participação em atividades de sua comunidade religiosa. Os deslocamentos também permitiram registrar as barreiras encontradas no espaço urbano.
Lúcia de Fátima Azevedo da Silva apresentou uma relação com o desenho que antecede sua participação no projeto. Em casa, mantém um espaço destinado à atividade e costuma representar familiares, amigos e outras pessoas de seu cotidiano. Sua experiência foi incorporada ao processo a partir dessa prática já existente.
Mitsuo Sato perdeu a visão aos 30 anos e aprendeu Braille no Centro de Educação Especial para Deficientes Visuais (CEEDV). Filho de japoneses, ele também desenvolveu estratégias de orientação e autonomia, incluindo o aprendizado da planta da própria casa durante sua construção. Em uma das vivências, revisitou espaços do Plano Piloto onde morou com os pais durante a juventude, utilizando memórias para reconhecer os lugares.
Cícero Lopes recebeu aos 55 anos o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista nível 1 de suporte. Jornalista, ilustrador, designer gráfico e professor de desenho, mantém o desenho como parte de sua trajetória desde a infância. Em Sobradinho, as caminhadas pela Avenida Contorno em direção ao Parque dos Jequitibás também fazem parte de sua relação com o território. Ele participa ainda do projeto Jornada do Desenho, no qual atua como professor.
As experiências dos quatro participantes foram utilizadas para discutir as diferentes maneiras pelas quais os espaços urbanos podem ser percebidos. Uma calçada pode representar uma barreira para uma pessoa que utiliza cadeira de rodas, enquanto uma pessoa cega pode estabelecer referências espaciais por meio de sons, texturas e memória. Para pessoas neurodivergentes, determinados estímulos e ambientes também podem produzir experiências específicas.
Durante as vivências, Marzadro utilizou decalques táteis produzidos em base siliconada para registrar relevos de calçadas e outras superfícies. A técnica, desenvolvida pelo artista e professor, transforma elementos do espaço urbano em materiais para obras que podem ser observadas e tocadas.
A proposta do projeto parte da relação entre corpo, cidade e arte e questiona a participação de pessoas com deficiência nos processos de criação artística. Nesse percurso, elas são consideradas coautoras das obras, a partir das histórias e percepções compartilhadas durante as atividades.
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