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Como ser um herói em Ceilândia

Filme conta história de jovem do DF que encontra um manual que desperta superpoderes

Como ser um herói em Ceilândia
Homem-Aranha inspirou o personagem: o "herói que paga boleto" Crédito: Divulgação

O filme Manual do Herói, dirigido e roteirizado por Fáuston da Silva, chegou aos cinemas na última quinta-feira (13), com distribuição da O2 Play. A produção brasileira, classificada como aventura e indicada para maiores de 12 anos, tem como cenário principal Ceilândia, no Distrito Federal, e acompanha Agnus, personagem interpretado por Eduardo Ydiriuá. O ator recebeu o prêmio de Melhor Ator na Mostra Brasília do 57º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro pela atuação no longa.

Produzido por Esmero Filmes e Hoje Filmes, o longa parte de elementos associados às histórias de super-heróis para construir uma narrativa ambientada em uma cidade periférica do Distrito Federal.

A trama começa quando Agnus recebe um livro durante um assalto. O objeto, chamado Manual do Herói, apresenta regras para o desenvolvimento de habilidades e conduz o personagem a um universo no qual heróis, vilões e pessoas que se omitem diante de conflitos disputam espaço.

O protagonista precisa conciliar a rotina de estudos, trabalho e problemas familiares com as situações desencadeadas pelo livro. Ao seguir as instruções do manual, passa a desenvolver habilidades como superforça, agilidade, inteligência, percepção de pessoas em perigo e capacidade de antecipar movimentos por até um segundo. O filme estabelece uma relação entre esses poderes e regras de comportamento, como altruísmo, anonimato, desenvolvimento intelectual e cuidado com o corpo. Ou seja, como diria o tio do Homem-Aranha: “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”.

A estreia comercial ocorre depois da participação do longa na programação do 57º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, realizado em dezembro de 2024. **Manual do Herói** integrou a Mostra Brasília e disputou o Troféu Câmara Legislativa. Eduardo Gabriel Ydiriuá recebeu o prêmio de Melhor Ator pela produção. A seleção no festival colocou o filme em contato com o público de Brasília antes da chegada ao circuito comercial. A produção também participou da 4ª OJU – Roda Sesc de Cinemas Negros e da Mostra de Cinema Rolê 22, segundo informações da produção.

Ceilândia como cenário

A escolha de Ceilândia é parte da construção do universo do filme. Para Fáuston da Silva, a cidade possui uma configuração urbana que permite aproximar o cotidiano de seus moradores de uma narrativa de super-heróis sem transferir a história para uma metrópole estrangeira.

“Manual do Herói” foi concebido a partir da ideia de que uma cidade conhecida pelo público pode abrigar acontecimentos que não são percebidos na rotina. Ruas, becos, telhados, comércio, transporte público e outros elementos da paisagem de Ceilândia entram na composição das cenas e estabelecem a relação entre o cotidiano e o universo fantástico apresentado pelo roteiro.

O diretor afirma que a referência para essa escolha está também em histórias de personagens que precisam lidar com problemas comuns enquanto assumem responsabilidades extraordinárias. Nesse modelo, Agnus não deixa de estudar, trabalhar ou enfrentar dificuldades familiares quando passa a desenvolver seus poderes. A rotina continua fazendo parte da trajetória do personagem.

A representação da cidade também procura evitar que a periferia seja apresentada apenas a partir da vulnerabilidade econômica. Segundo o diretor, o filme mostra moradores que trabalham, estudam, convivem com dificuldades e participam de atividades culturais, enquanto a cidade aparece com seus espaços, relações e contradições.

“É fácil imaginar que, por trás daquela cidade que a gente conhece, exista um mundo fantástico acontecendo sem que a maioria das pessoas perceba. Nesse sentido, ela funciona para nós como a Nova York do Homem-Aranha clássico: uma cidade real, reconhecível, onde o extraordinário pode acontecer. O Peter Parker tinha superpoderes, mas também precisava trabalhar, estudar, pagar aluguel, comprar comida e, em certos momentos, até se preocupar com a medicação da Tia May. Esse Homem-Aranha que paga boleto, que enfrenta dificuldades sociais e ainda encontra espaço para ser nobre e ajudar a comunidade sempre foi muito poderoso para nós, brasileiros”, explica.

Poderes com escolhas

No universo criado para o filme, o acesso ao Manual do Herói não funciona apenas como mecanismo para conceder poderes. A pessoa precisa seguir as regras apresentadas no livro. A primeira delas é o altruísmo, que determina que o herói não deve se omitir diante de uma situação que exija ajuda.

Outra regra é o anonimato. O personagem usa uma máscara e não busca reconhecimento público por suas ações. A ideia é estabelecer uma diferença entre ajudar alguém e transformar a ação em instrumento de autopromoção. O desenvolvimento intelectual também integra as regras, assim como os cuidados com o corpo.

Conforme avança na leitura, Agnus desenvolve as chamadas “canções de baleia”, utilizadas como uma espécie de radar para identificar pessoas em perigo nas proximidades. Ele também passa a ter antevisões, recurso que permite visualizar acontecimentos até um segundo antes de ocorrerem.

A construção dos poderes acompanha a evolução do personagem e relaciona as habilidades às escolhas que ele faz. A história, dessa forma, coloca o heroísmo menos como consequência de uma origem extraordinária e mais como resultado de comportamentos adotados no cotidiano.

A produção também incorpora referências à cultura brasileira e à presença de povos indígenas. O universo apresentado inclui personagens negros e indígenas e uma heroína da etnia Suruwahá. Elementos culturais, pinturas e idioma são utilizados na composição dessa personagem. As cenas de ação incorporam movimentos de capoeira.